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Batota na economia

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Parte do país já se agita em plena campanha eleitoral. Em plena ilha da Madeira (onde foi inventada uma nova fórmula de governação: o rotativismo no governo desde que dentro do mesmo partido!) saltaram ao ar meia-dúzia de palavras que são todo um tratado de economia.

Falando ao povo disse Passos Coelho que afinal o que conta são as empresas, “são essas que criam riqueza”. Disse que não vale a pena ir atrás dos governos que fazem “batota na economia”. Dito neste determinado contexto (uma território onde aparentemente o jardinismo laranja governou oferecendo emprego aos eleitores!) há algo curioso nesta observação.

Falar de batota na era em que a corrupção e o crime económico produzem manchetes quase diárias é já um lugar-comum. Porém, com conversas destas esconde-se mais do que se revela. E um “player” que faz uma jogada retórica destas sabe disso muito bem.

Representação injusta da economia

Na economia real não são apenas as “empresas” que criam valor. Para começar dentro das empresas existem trabalhadores. Na verdade são eles que resolvem os desafios produtivos do dia-a-dia e põem o pão em cima da mesa das tais empresas: é por isso que a economia precisa deles e é por isso que devem ser respeitados e bem pagos. E fora das empresas também existe o Estado. E o Estado fornece serviços, que vão da segurança à regulação, do investimento em educação até às infra-estruturas, serviços gerais que têm uma utilidade económica de base: e é por isso que o Estado deve ter receitas e é por isso que a descapitalização do actor público é um erro.

Mais: hoje em dia sabemos que há organizações viradas para a batota, indústrias assentes na prestidigitação e gestores especializados no ilusionismo. Esse autêntico eixo franco-alemão da economia portuguesa que era o complexo BES-PT demonstrou isso à náusea. E lesou meio Portugal.

E, entretanto, quando o consumo parece voltar a Portugal e nos dizem que tudo finalmente entra nos eixos eis que as coisas não são o que parecem. Afinal é o crédito ao consumo que voltou a subir (levando os bancos de volta aos lucros a cavalo na cobrança de comissões!). É, então, hora de perceber a batota que a economia financeira faz com a economia real.

Jogo injusto entre economias

Algo que alguns querem fazer esquecer é que também existe batota entre economias. Como lembrou o Prof. Freitas do Amaral na sua entrevista à Antena 1 (23 Julho) "a ideia de Europa está subvertida". O contrato inicial entre os países europeus tinha sido de “mais solidariedade” (dos países ricos) em troca de “mais abertura comercial” (dos países pobres). Diz ainda Freitas do Amaral que hoje este acordo foi “rasgado” pois acabou a solidariedade ao mesmo tempo que se mantém a falta de protecção nos mercados mais frágeis das periferias.

De facto, é como diz Wolfgang Munchau (um analista várias vezes citado nesta coluna de &conomia) no Financial Times de 27 de Julho: a Europa dos nossos dias é um processo kafkiano. Toda a gente sabe que há regras; ninguém sabe quais são; toda a gente sabe que têm de ser seguidas. Por exemplo, o ex-Ministro Varoufakis foi expulso de uma reunião de um grupo que afinal nem tem existência legal mas é onde se selam as decisões dos países do centro-norte que afectam todos os outros: o “Eurogrupo”! No meio disto a vertigem de correr com a Grécia para fora da sala e da moeda única pode não ter sido por não ter aplicado o que se lhe pedia. Paradoxalmente, e como diz o macroeconomista de Oxford Simon Wren-Lewis no seu blogue mainly macro (7 Julho), é precisamente o contrário: consolidou como nenhum outro país e ainda assim os prometidos resultados miraculosos não apareceram …. é com esta realidade verdadeiramente insuportável que os “ordo-europeus” querem evitar confrontar-se!

Neste contexto que vale a pena evocar Stiglitz e Krugman (algo menos comum nesta coluna, já que são comentadores muito conhecidos). Stiglitz num importante artigo no New York Times de 25 de Julho diz que várias vezes a Troika fechou os olhos ao nepotismo e aos desequilíbrios na economia grega. A Troika foi conivente com os poderosos: por exemplo, a) deixou que as iniciativas de facturação electrónica na Grécia fossem torpedeadas por grupos de interesse, b) permitiu que os mass media gregos conservadores obtivessem empréstimos quando não os deveriam ter recebido segundo critérios estritamente económico-financeiros, e c) impôs a abertura dos mercados de certos bens de primeira necessidade, como o leite, quando sabia que as importações vindas do norte da europa esmagariam os produtores tradicionais gregos ao mesmo tempo que as distorções de concorrência no todo-poderoso retalho permaneciam.

Por chamar a atenção para estes jogos de assimetrias foi já Krugman apelidado de “anti-alemão” e “híper-keynesiano” por um jornal alemão como o Süddeutsche Zeitung. O que é assustador nesta dinâmica de vitimização é que este não é um jornal conservador, é sim um jornal moderado e do centro. Aliás foi o primeiro jornal autorizado e publicado a seguir ao derrube do regime que terminou em 1945! Esta a situação europeia é bem descrita pelo negociador de dívida uruguaio, o veterano economista Carlos Steneri: Alemanha parece estar fixada “numa visão geocentrista onde o que impera são os seus interesses e onde o resto das nações lhe deve ser funcional.” (El País, 20 de Julho)

Dir-se-ia, portanto, que desceu uma nova cortina de ferro na Europa, desde o Mar do Norte ao Danúbio. Acima desta é a esfera de quem triunfa economicamente. Abaixo dela é a zona falida que só deve obedecer politicamente.

A batota tornou-se a regra?

Afinal as próprias regras estão à deriva. Dentro das empresas. Dentro das economias. Entre as economias. Ou se arranja um leme ou mais cedo ou mais tarde será cada um por si.

POST-SCRIPTUM: Sobre Angola já muitos disseram que economia devia diversificar. Todavia, durante os tempos gordos do petróleo em alta a oportunidade foi desperdiçada. E hoje com o ouro negro na casa dos 50 dólares toda a liquidez da economia está emperrada. Infelizmente, houve algo ainda mais importante que diversificação da economia e que também não foi feito: a diversificação da política. Uma carta “Pela libertação dos presos políticos em Angola”, assinada por vários especialistas e académicos, foi publicada no Público este fim-de-semana. Um artigo de Daniel Oliveira no Expresso digital desta semana dizia que ao ter ousado acusar de golpe de Estado 15 jovens activistas presos o poder indispôs figuras centrais do próprio regime para as quais que neste momento não há “dinheiro para comprar”. Estas denúncias e alertas ecoam algo que um dos mais informados, equilibrados e incisivos observadores da realidade angolana advertia há tempo. A 4 de Julho o economista Manuel Ennes Ferreira referia-se ao modo como o tratamento desses jovens está a causar um mal-estar que está a escapar ao controlo nacional e internacionalmente. De um modo particularmente contundente o Professor Ennes Ferreira escreveu no semanário Expresso: “Estou preocupado, todos devem estar verdadeiramente preocupados.” Indisputavelmente saberá o que diz; e porque o diz.