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Os verdadeiros portugueses

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Algumas notas breves num verão que chega ao seu pico:

1. Fadiga grega. A apregoada capitulação grega perante um acordo envenenado (em que nem a parte que ainda resta do governo que começou a legislatura acredita nele) ditou o fim de um ciclo noticioso. Os portugueses, entre outros, já estavam numa fadiga greco-noticiosa. Por isso não vai ser este um artigo em que nos vamos alongar sobre isto. O que vamos fazer aqui é apenas puxar para a antena algumas considerações relevantes que alguns analistas fizeram sobre o (momentâneo!) desfecho da questão. Note-se: começamos aqui, no próximo ponto, por selecionar apenas peritos “mainstream” ou ligeiramente mais conservadores do que o típico centro político (não iremos referir-nos a “radicais”, como Stiglitz ou Krugman, os quais tendem a estar tantas vezes certos nestas matérias como a ser ignorados).

2. Fantasmas periféricos. O FMI foi o primeiro a dizer que sem uma restruturação da dívida a recuperação da Grécia não tem futuro (e que sem recuperação ainda menos dívida vai ser paga). Curiosamente, esta é uma análise libertada antes do novo economista-chefe da organização, Maurice Obstfeld, tomar posse (entrará em funções em Setembro próximo). Como o “The Economist” já fez questão de fazer notar no dia 20 de Julho, este economista previu muito cedo (pelo menos desde 1997) que a arquitetura do euro seria inerentemente instável: o sistema bancário do centro iria sobre-emprestar à periferia a qual demoraria muito tempo a recuperar uma vez debaixo dessa dívida. Por seu turno apareceu Ben Bernake, o anterior responsável pela Reserva Federal norte-americana, com um artigo perguntando se o “norte” da Europa está a cumprir a sua parte uma vez que tem beneficiado de um euro internacionalmente menos caro do seria uma moeda única sem a presença das economias do sul. Aqui eu acrescentaria que os moralistas de serviço estão em falta grave mesmo em termos legais: o “Macroeconomic Imbalances Procedure” é um mecanismo olha para desequilíbrios como tal, tanto positivos ou negativos (pois são duas faces da mesma moeda), e pretende que hajam sanções por superavits excessivos nas suas transações correntes. Foi adotado em 2011 mas dele ninguém fala (talvez com medo de represálias por parte dos polícias que não se auto-policiam!). Outra observação importante foi feita pelo editor do “Financial Times Deutschland”, Wolfgang Munchau, na sua última crónica de 19 de Julho: o atual governo grego acabou por aceder a um resgate tão mas insustentável como os anteriores: é impossível imaginar como pode ser cumprido pois o país afunda-se num ciclo vicioso. Para Munchau o “Grexit” é como um fantasma: vai continuar a andar por aí.

3. Junker, o meio-entendedor: O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker disse ao diário belga “Le Soir” (que o conhece bem) que o governo de Portugal repudiou qualquer restruturação da dívida pública grega (uns 180% do PIB) antes das eleições portuguesas. Passos Coelho soluçou no seu tom monocórdico que não … isso era uma “meia verdade” metida dentro de um “mal-entendido”. Já é muito fumo, e onde há fumo costuma haver fogo (pelo menos em pleno Verão!). Na sequência de uma denúncia autorizada vinda de dentro da sala de negociações esperemos pelo menos que agora o povo português seja bom entendedor, e que estas meias-palavras bastem.

4. Cavaco, o voyeurista da dívida. Entretanto Cavaco acudiu a Coelho e disse: a posição portuguesa “não tem qualquer relação com eleições em Portugal”. Cavaco Silva considera ainda que não deve haver restruturação da dívida. Isto é curioso vindo de alguém que candidatou ao lugar dizendo que o país precisava de um economista-presidente: sob o seu olhar a dívida pública portuguesa passou de 62,8% do PIB (quando tomou posse em 2006) para bem mais do dobro (130,2% previstos em 2015). Pior: para alguns economistas a lei da gravidade parece que não importa … nem tudo o que sobe tem de descer. Porém, para outros é uma questão de lógica: há cada vez mais economistas (e não apenas os tais “Krugmans” ou “Stiglitzs” como já vimos) acham o contrário … se calhar o que subiu a mal tem mesmo de descer a mal.

5. Verdadeiros portugueses. Hoje sabemos que o escrutínio para mais uma legislatura será em 4 de Outubro próximo. Ontem na sua declaração ao país o ainda-Presidente exigiu estabilidade, lembrando que em 23 dos 28 países da União Europeia existem sólidas soluções de coligação a dois ou a três partidos. E deu como bom exemplo a Finlândia que em Abril fixou no poder um governo com três partidos. Pasme-se! Vindo de um alegado social-democrata é curioso ouvir isto. É que talvez haja muito boa gente em Portugal que pense que a ascensão ao poder do partido “Verdadeiros Finlandeses” não é uma coisa boa. Trata-se de uma força xenófoba, ultra conservadora e étnico nacionalista: algo em contra mão com os valores-matriz que estiveram na origem da construção europeia! Este partido trata-se, de facto, de uma força viva num dos governos do norte europeu mais anti-solidariedade com o sul europeu; algo que dispensaríamos, pois o atual governo português já estava bastante especializado nessa linha! Portanto, neste contexto, qual é a mensagem do ainda Presidente?! É uma piada de “silly season” ou foi algo mais encriptado. Afinal, a que incita Cavaco? À formação dos “Verdadeiros Portugueses”?! A uma coligação PSD-CDS-PNR?! É este que deseja ser o legado da sua presidência?! Enfim, … já tínhamos noção que havia algures para os lados de Belém um economista desfasado da realidade: parece evidente agora que existe um político esvaziado de sentido de oportunidade. Tanto nestas próximas eleições (legislativas) como nas que virão logo a seguir (presidenciais) é hora do voto popular dar o seu melhor. Parafraseando Jorge Palma: enquanto houver democracia para andar, valerá a pena continuar.