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Expresso

&conomia à 5ª

Zona Política Péssima

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A conversa tem de começar por aquilo que é estrutural. O projecto euro não tem as características de uma “zona monetária óptima” pois com as taxas de câmbio fixadas internamente o valor externo da moeda única discrimina as economias de acordo com o seu perfil de especialização produtiva. Os países ou regiões não conseguem ter flexibilidade para lidar com choques nem ferramentas para tentar gerir as derivas diferenciadas de desempenho que se instalam. Sem mecanismos de redistribuição de risco algo terá de ceder.

Na ausência de um sistema de transferências correntes que compense a dessincronia das flutuações intra-eurozona acabou por ser o Estado social a válvula de descompressão, o que acabou por agravar ainda mais as assimetrias europeias ao nível social ao mesmo tempo que a emigração dos mais qualificados contribuiu para elevar o produto potencial dos países do centro. Isto significa que a crise tem contribuído para extremar a moldura já rígida da governança económico-monetária na Europa. A ênfase nas “regras” mascara a massiva alocação da pressão para a periferia. Os interesses nacionais desses países como um todo são postos em causa e não apenas as suas classes médias e baixas.

A falta de real integração económica ameaça, portanto, o continente de desintegração política. A falta de competitividade externa do bloco europeu já minou o seu estatuto e bem-estar relativos no mundo. A miopia estratégica permitiu ainda um processo que formou uma cintura de insegurança desde o norte de África, ao Levante, à agora móvel fronteira russa. Dentro da Europa as recriminações proliferam, o compromisso é raro e o terreno interno torna-se fértil para movimentos fracionários. 

Entretanto, os desvios em relação à “ordem estabelecida” são logo intensamente contrariados por um “establishment” financeiro-burocrático hoje incrivelmente entrincheirado (atenção: os funcionários dos BCEs, dos Mecanismos de Estabilidade Europeus, etc., ganham vários múltiplos dos benefícios de especializações semelhantes nos seus países de origem e constituem hoje uma tecno-estrutura com um grande e vital interesse próprio no “status quo”).

E depois algo quebrou na Grécia. É mais que óbvio que não faltaram muitos falhanços de democracia interna, oligarquias poderosas, corrupção intensa. Todos esses são factores culposos e agravantes do enquadramento estrutural a que a economia se submeteu pela mão das suas elites pró-europeistas co-adjuvadas pelo impecável “expertise” norte-americana da Goldman Sachs quanto à maquilhagem das contas públicas.

Ninguém tem o direito de iludir os gravosos problemas domésticos da Grécia, tantos deles de exclusiva autoria própria dos poderosos locais. Mas o tão demonizado Syriza não foi responsável por nada desses erros passados. E Junker (esse ex-Primeiro Ministro de uma off-shore instalada no centro da Europa) tem feito tudo por tudo para bloquear as abordagens do governo grego e instalar de novo na Grécia os operadores locais que são, esses sim, os responsáveis pelo desgoverno de décadas do país (em Bruxelas não se importam com esses políticos desde que seja para manter as politicas). Estes cinco meses têm mostrado que a Europa dos dias que correm não perdoa a quem se insurge.

Ao racionar-se o acesso ao dinheiro na Grécia a moeda deixou de ser “única” na zona Euro. Ao não se pagar a uma instituição externa como o FMI então o “default” é Europeu e não apenas grego.

Ninguém se pergunta como é que afinal a Grécia recebeu tanto dinheiro e faliu (se calhar é porque o “auxílio” tinha “v” de volta: foi realmente para salvar os bancos privados do centro que se fartaram de emprestar aos gregos “como se não houvesse amanhã”). Ninguém assume que a Grécia foi afinal o melhor aluno da austeridade e que isso levou o país à ruptura (nenhum país reduziu tanto o défice nem cortou tanto no emprego público, salários, pensões, etc.). Ninguém explica como é que uma economia que não cresce pode pagar as suas dívidas (como é que, afinal, um território que não cresce próximo das suas capacidades é solvente?). Ninguém assume que forçar uma economia deprimida a superavits positivos do saldo primário é impor uma transferência daqueles países que menos podem para os mais favorecidos (isto é, um serviço aos interesses externos e não aos nacionais).

Para estabilizar a situação não vejo pessoalmente como é que Grécia pode sustentar a sua posição como “país avançado” (terminologia empregue quando não cumpriu com o FMI esta 3f) sem cortar pelo menos metade da sua dívida, realocar a restante para cerca de trinta anos, e indexar a taxa de juro média ao crescimento económico com um desfasamento de três ou quatro anos para permitir a inversão de trajectória.

E tudo isto não bastaria: acertando o relógio de volta aos indicadores que tinha no início da moeda comum, mas mantendo toda propensão para a divergência, mais cedo ou mais tarde os mesmos problemas iriam manifestar-se. Há um problema de engenharia económica no centro disto tudo, e não apenas má vontade na periferia disto tudo. Segundo a leitura que faço é por isso que economistas independentes como Stiglitz e Krugman na academia, ou Martin Wolf e Wolfgang Munchau no Financial Times, se inclinam para o “NÃO” caso pudessem votar no referendo.

Não é claro como se poderá conviver na Europa depois de tudo isto. O ambiente é péssimo. Cada vez há mais pessoas a pensar exactamente como Matteo Renzi quando na semana passada explodiu de fúria num jantar oficial: “Se este é a vossa ideia de Europa fiquem com ela!”.

Só não é clara é uma coisa: o agravamento da crise na Grécia vai finalmente mostrar o que realmente se passa com as grandes instituições bancárias privadas europeias?! Se assim for, o Deutsche Bank, que tem uma pilha de derivados que é mais de 20 vezes o PIB da Alemanha, pode ser o segundo dominó. Aí, sim, veremos como e a quem se aplicam as tais regras.

 

PALAVRAS VINDAS DA GRÉCIA
Pedi informações a várias pessoas que estão na Grécia sobre o que se passa e como percebem a situação. São uma amostra diversificada. Todas são pessoas que se poderiam descrever como do “centro político”. O que se apresenta a seguir são testemunhos de norte a sul do país recolhidos em primeira mão para a presente crónica.

Um economista português em Tessalonica, mas que não pode ser identificado por trabalhar numa instituição oficial, diz:

As opiniões estão algo divididas. Embora a maioria acredite que tem de haver uma reconversão total da política de recuperação, muitos acham que o governo possa ter ido longe demais. Parece-me que há, no colectivo, uma inscrição das responsabilidades nacionais, incluindo a necessidade de reforma institucional. Muitos também acreditam que toda a acção

governamental é estratégica, de modo a conseguir um acordo mais benéfico para o país. Será interessante ver o que o referendo traz.

Em Atenas, Aliki Mouriki, socióloga grega que investiga no Centro Nacional de Pesquisa Social, dá o seguinte testemunho (transcrevo-o como o recebi):

At the end of the day, Greeks should not miss this unique opportunity that the crisis and its escalation offer us to mature collectively and to get rid of our long-standing myths and illusions, closely knit with the clientelist system, that keep us trapped into backwardness.

Finalmente, o Professor Jan Fagerberg da Universidade de Olso oferece o seguinte relato desde a perspectiva de uma ilha grega:

Here on the island, things have turned markedly to the worse during the late year, with shops closing etc. I talked to one shopkeeper I know, he said sales had been down 35 % so far this year. Many people here are not particularly enthusiastic about Syriza, and they clearly want to stay in the EU, but they also want the current austerity policy - with its very negative consequences for peoples daily lives - to come to and end. The idea of returning to drachma does not seem so far off as it used to be. (…) The primary problem in Greece is the depressed state of the economy, not “spending spree” that needs to be curtailed. The only realistic way out of the current mess is for Greece to start growing, and it is totally unrealistic that this can happen solely or mainly through exports.

OUTRAS IDEIAS-BASE
Apesar da questão da Grécia monopolizar boa parte das atenções vale ainda a pena assinalar o seguinte. Estão a sair livros de grande qualidade de jovens participantes da vida pública portuguesa (destacarei alguns detalhes de percurso apenas para os leitores estejam conscientes da rica diversidade em causa). Não escondem as suas perspetivas políticas ao mesmo tempo que produzem análises de grande qualidade sobre o Portugal que vamos tendo.

* Está ser lançado o livro “Privataria” de Mariana Mortágua e Jorge Costa (uma economista e um documentarista, militantes do Bloco de esquerda). Este é um livro que ganha por ter sido lançado no Verão, pois trata-se de uma altura para investir na leitura e absorber trabalhos que possam ser realmente informativos e muito bem pesquisados.

* Está a ser lançado o livro “O Que Fazer Com Este País?” de Ricardo Paes Mamede (Professor de Economia, apoiante do Livre/Tempo de Avançar). Este livro é um útil instrumento para saber como reconstruir a sociedade portuguesa a partir de uma política económica sã.

* Está a ser lançado o livro “Insondáveis Sondagens” de Diogo Agostinho e Alexandre Guerra (um economista e um assessor de imprensa, do PSD). Este é um livro oportuno para quem tem curiosidade por aquilo que são a “carne para canhão” dos períodos eleitorais, as estatísticas sobre intensões.