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Expresso

O arquipélago ibero-americano

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Ponta Delgada – Os Açores são uma região arquipelágica de um país arquipelágico (Portugal, isto é algo pouco enfatizado, é mais que a sua parte continental) de um sistema arquipelágico inter-continental. Foram as implicações desta observação que se discutiram nesta cidade da ilha de São Miguel num fórum que acaba de terminar nestes meados de Junho de 2015.

O que se pretende sublinhar é a inserção dos Açores como região com uma posição central no espaço ibero-americano. Vale a pena constatar o óbvio: os Açores estão exactamente a meio-caminho entre a Ibéria e as Américas. Este é um espaço oceânico, ou seja, marcado por uma grande fragmentação e separação geográficas, obstáculos dos quais é preciso tirar partido.

Com mais de 20 países com uma população total acima dos 600 milhões de habitantes a Ibero-América (Portugal, Espanha e os países ditos latino-americanos) é uma arena geo-cultural e geo-económica que se deve tomar em consideração. E é de levar em consideração sobretudo numa era em que a Europa está bloqueada numa crise auto-destrutiva e quando os Estados Unidos se desalavancam da Base das Lages.

O fórum incluiu especialistas dos Açores e do resto de Portugal bem como de várias outras proveniências (Peru, México, Paraguai, Brasil, País Basco). E ocorreu sob a égide do CYTED. O CYTED é o “Programa Ibero-Americano de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento”. Para ser simplista, é como se fosse quase uma fundação de ciência e tecnologia ibero-americana. Existe há mais de 30 anos e Portugal é um país fundador.

Ao contrário do que muito se diz, a América Latina dos últimos é mais do que uma “fiesta de las commodities”. Esta vaga de crescimento foi impulsionada pelo apetite insaciável de matérias-base da China desde o ano 2000 e agora está finalmente a abrandar. E apesar das recentes dificuldades ela cresce: o FMI estima um crescimento latino-americano-caribenho agregado de 2,0% em 2016 contra um crescimento da Zona Euro de 1,6%.

O que é mais importante: estes países têm-se democratizado e organizado nos últimos 20 anos. As receitas públicas crescem acima do ritmo da economia e as despesas em educação e capital humano, em ciência e tecnologia, em investigação e inovação crescem acima disso.

A generalidade destes países tem investido em inclusão e em conhecimento, os quais são factores de competitividade e coesão a longo prazo. Curiosamente (ou não), isto aconteceu quando os EUA e a Europa se desinteressaram desta área geográfica.

E é também verdade que estes países têm sido favorecidos por uma globalização que se tem tornado mais plural e dinamizada por trocas comerciais sul-sul (a emergência dos BRICS). Esta tendência tem permitido mais oportunidades e uma chance para a América Latina ganhar autonomia face aos países desenvolvidos.

Uma das principais conclusões do encontro na Universidade dos Açores, e que contou também com o apoio e participação de empresas (como a Electricidade dos Açores, Crédito Agrícola dos Açores, Portos dos Açores, entre outras) e várias instituições (IPMA, INPI, SDEA, entre outras), é suficientemente simples: os países Latino-Americanos estão a entrar numa nova fase na qual precisarão de diversificar as suas economias bem como desenvolver o acesso a novas infraestruturas.

O que isto pode significar para Portugal e para os Açores é o seguinte: a) cooperação para os sistemas de alerta de desastres naturais e eventos meteorológicos, por exemplo na área sísmica-vulcanológica/Açores-Chile; b) exploração de abordagens geo-térmicas e aproveitamentos de baixa entalpia por exemplo Açores/México/El Salvador; c) cruzamento de boas práticas em termos de turismo sustentável, como Açores/Paraguai no caso do turismo ornitológico e Açores/Guatemala no caso do turismo inclusivo, social e solidário; d) reforço das capacidades marinhas comuns de geo-reconhecimento e bio-prospecção Portugal/Brasil; e) agendamento de convergências entre Portugal e o Uruguai na questão dos drones marítimos para vigilância ambiental e pesqueira; f) inventariação das sinergias estratégias no ramo da mega-logística oceânica entre os Açores e o Panamá.

Nem sempre é fácil encontrarem-se menus de política pública e estratégia empresarial numa conversa em que parece que já foi tudo dito. No entanto, a julgar pelo empenhado entusiamo e o sereno acertar de expectativas entre quem esteve presente esta parece ser uma agenda tão pouco trilhada como interessante. É para isso que servem estas inesperadas aproximações: para chegar mais longe.