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&conomia à 5ª

Macau e a inversão dos interfaces

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Há um ponto no sudoeste asiático em que a língua portuguesa ainda é um dos sistemas operativos. Por cima desta infra-estrutura, articulada na forma de letra de lei e ainda por muitas bases procedimentos herdadas de cinco séculos de influências cruzadas, tem lugar uma densa efervescência económica. Macau é uma febril zona de contacto da grande China com o mundo global envolvente. 

Quem por lá passa, vindo de um périplo pela imensa massa de território chinês, pode ter uma sensação particular. A de que existem pontos nevrálgicos em que há interconexão deste enorme gigante basculante com o resto do mundo lá fora, o qual se apressa a tentar aprender como se adaptar a esta nova megacentralidade global. 

Na década de 1980 é sabido que a República Popular da China montou uma série de zonas de interface para absorver as rotinas que lhe interessava adquirir do sistema de mercado internacional. Lançou as “zonas económicas especiais”. Ou seja, a política de “reforma e abertura” foi desenhada de forma circunscrita no espaço e faseada no tempo. Esta prudência e gradualismo foram tímidos e incrementais apenas na forma; na substância tratou-se do começo de uma ousada e radical operação de transformação industrial e social.

O que é interessante é que as conhecidas “ZEE” não foram instituídas em que qualquer lugar ou distribuídas aleatoriamente no espaço. Como que para amortecer o choque com a economia de livre iniciativa que já dominava os espaços externos à China essas experiências foram ensaiadas em pontos muito específicos: Zhuhai (frente a Macau), Shenzen (frente a Hong-Kong), Xiamen e Shantou (frente à ilha formosa, Taiwan). A este e oeste deste fio de pérolas contavam-se Hainan e Xangai como as duas outras ZEE, compondo-se assim na China uma margem organizada de aproximação perante um sistema económico que lhe era estranho.

E o que mudou?!

Por um lado, no mesmo sítio em que nos anos de 1960 e 1970 muitas pessoas arriscavam a vida tentando passar como emigrantes clandestinos para Hong-Kong temos hoje bares da moda onde “hipsters” impecáveis acham que tudo o que está a acontecer já está a acontecer ali. 

Por outro lado, em Macau, se nos anos de 1990 e 2000 fazia sentido aos estrangeiros atravessarem as Portas do Cerco para irem comprar electrodomésticos modernos e outros bens tangíveis hoje são os Chineses que passam o posto fronteiriço para irem às compras procurando velhas criações (carne caramelizada, pasteis de nata, biscoitos semidoces) e novos intangíveis (turismo, entretenimento, casinos com ambientes de última geração).

E o que está a inverter-se?

As setas da influência cambiaram o sentido. Por exemplo, não são tanto os orientais que vão a Macau para terem uma ideia das dinâmicas do Ocidente. É o contrário: os ocidentais podem é de Macau obter um lampejo do dinamismo a Oriente.

E que desafios estão a emergir?!

O território de Macau, assim como outras praças-fortes de uma nova China em evolução, enfrenta desafios. Trata-se de uma região que também está já a sofrer das doenças da economia avançada. Esta como outras cidades que têm partilhado o crescimento chinês sofrem hoje extremas pressões que derivam daquilo que muitas vezes se apelida de “excesso de sucesso”. Muitos congestionamentos, construção permanente, pressões ambientais graves, tensões entre fluxos de transeuntes, etc. 

E que novas lições no horizonte?

Estes são fenómenos já discutidos abertamente, desde o topo até à base da sociedade chinesa. Por exemplo, em várias cidades já só se toleram motociclos eléctricos e circulam automóveis alternando números pares/impares das matrículas como mecanismo de racionalização do uso do espaço público. 

Quem sabe em breve, em territórios históricos sensíveis como Macau, só se empregarão transportes colectivos não-poluentes e se passará a gerir as entradas de visitantes alternando os códigos alfanuméricos dos cartões de identificação ou passaporte? Essas soluções poderiam ser de muito interesse para cidades como Veneza e Lisboa, que são também delicadas zonas culturais especiais, e que, tal como Macau, é irracional serem tratadas como parques temáticos.

Ou seja, o mundo olha hoje para a grande China também como fonte de novas experiências de possível aplicação global. Na China sabe-se que acabou o tempo de aprender seguindo os modelos dos outros. Fora da China espera-se que desde lá se lidere pelo exemplo, pois os velhos e disfuncionais modelos já estão esgotados em todo o lado. A diferença é que nuns sítios eles se esgotaram mais rapidamente que noutros.