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Expresso

China e o seu contrário

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Há um provérbio chinês que diz: “mais tarde ou mais cedo tudo se transforma no seu contrário”. Talvez não seja um ditado exclusivo desta cultura mas dá que pensar. Sobretudo, a alguém, como eu que está em trabalho neste país há duas semanas.

Por exemplo, a percepção da China como um país de produtos de baixa qualidade deverá ser, com mais justiça, substituída pelo seu contrário. Em boa verdade, se há um país onde nunca vi aquilo que em Portugal se chama depreciativamente “loja do chinês”, esse país é a China … E, já agora, os meus alunos chineses também não vão aos típicos restaurantes “chineses” em Portugal, pois eles não representam verdadeiramente a deliciosa e vibrante cozinha chinesa.

Por exemplo, muitos ainda associam a produção de equipamentos chineses ao filão de electrodomésticos ligeiros que invadem os supermercados portugueses. Contudo, a China aumenta anualmente as suas exportações de tecnologia de caminho-de-ferro, a qual já chegou a mais de 30 países.

Por exemplo, todo o furor das últimas semanas sobre a “rota da seda” e o decorrente arrastar da plataforma euro-asiática para oriente deve também ser repensada. A China, com o projecto da linha de mercadorias entre um porto no Brasil e um porto no Peru, que é um plano inter-oceânico, mostra que a sua influência geo-económica é realmente pan-regional numa escala global.

Por exemplo, o papel externo nas inter-comunicações internacionais não é, de todo, a única preocupação de política pública estratégica chinesa. As autoridades da República Popular da China acabam de desencadear uma conspícua estratégia para obrigar os operadores internos de internet a investir em banda larga, a baixar os preços e a melhor as velocidades de transmissão de dados.

Por exemplo, a força da China é associada sobretudo à produção de mercadorias e agora em mega-iniciativas de infra-estruturas. Mas, a China afinal está em grande força também nos intangíveis tendo até as Nações Unidas já em 2012 assumido que este país se tornou o maior do mundo em termos de propriedade industrial, nomeadamente em patentes de invenção … isto é, ultrapassaram os EUA, a Alemanha e o Japão que durante um século ocuparam o topo da lista.

A China é, na base de todos estes factos, a maior história de progresso económico e tecnológico dos nossos tempos. Dado o ponto de partida de há quase 40 anos (o processo de reforma e abertura iniciado em 1978) isso mostra como muitos “contrários” são possíveis de alcançar no período de uma geração … e mostra também que há uns contrários mais prioritários que outros.