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Expresso

&conomia à 3ª

O círculo vicioso do verdadeiro Dono Disto Tudo

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Há muito tempo se diz que a Esquerda é mais amiga do povo do que a Direita. Esta crise financeira de 2008, que ainda vivemos, veio reforçar este sentimento, pois a Direita tem assumido a despesa de implementar a austeridade.

Mas a austeridade tem-se imposto mesmo à Esquerda, como se viu em França com Hollande e se verá agora na Grécia. E se verá em Portugal. E depois em Espanha. Ninguém gosta de austeridade. Nem mesmo a Direita. Apesar de às vezes parecer...

Os problemas financeiros da Grécia, Portugal e Espanha foram agudizados pelos problemas económicos. A austeridade necessária para controlar os primeiros alimentou os segundos. E assim chegámos a mais um ano eleitoral na Europa.

O Banco Central Europeu (BCE) é cada vez mais o verdadeiro Dono Disto Tudo.

O BCE começou a semana passada o seu programa de Quantitative Easing (QE). Irá comprar 60 mil milhões de Euros de dívida pública por mês até Setembro de 2016.

O BCE está bem consciente dos riscos que corre ao manipular o funcionamento das economias e dos mercados de capitais com o seu programa de QE. Por isso hesitou tanto em implementar o QE, tendo demorado mais 6 anos que os EUA e o Reino Unido.

Esta intervenção do BCE deve-se ao reconhecimento das fragilidades e incapacidades da Europa e dos governos dos seus estados-membros em tomar medidas para vencer a crise, especialmente da sua inabilidade em fazer reformas estruturantes.

Mas infelizmente corremos o sério risco de entrar num círculo vicioso.

O programa de QE do BCE e a queda das taxas de juro irão suspender os já poucos esforços dos governos para fazer reformas. E a ausência de reformas estruturais nos estados-membros em dificuldades irão aumentar a divergência das suas economias com as dos restantes países.

A união política, económica e monetária ficará assim ainda mais difícil de atingir, podendo até agravar a situação actual e pôr em causa o próprio Euro.

Porque quando a música do programa de QE parar, muitos vão ficar sem cadeira para sentar.

A viragem à esquerda expectável na Europa poderá aumentar a tentação de implementar políticas expansionistas nesta fase pseudo-expansionista do círculo vicioso provocado pelo BCE. Em vez de aproveitar a expectável melhoria económica para acomodar as tão urgentes reformas.

Os recentes avisos de Bruxelas, Berlim e FMI da importância da continuação das reformas (e já não da austeridade, após os recentes ensinamentos dos gregos) estão relacionados com este receio. E não com qualquer tipo de sadismo da sua parte ou castigo dos povos do sul.

Se o crescimento económico não acompanhar a desvalorização do Euro e a redução das taxas de juro provocadas pelo programa de QE, as economias do sul afastar-se-ão ainda mais das economias do norte da Europa.

E a responsabilidade da próxima crise, que ainda será maior, não será do BCE mas sim dos governos nacionais que não querem ou não sabem ajustar as suas políticas económicas. À esquerda e à direita!