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Expresso

Vende-se... por favor!

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Começa agora a ficar claro que negociar com as instituições europeias e com os parceiros europeus a recapitalização da CGD ou a suposta aplicação de sanções por incumprimento do Tratado Orçamental não é sequer comparável a negociar com o BE e com o PCP os acordos políticos que sustentam o actual governo minoritário do PS. Negociar interesses contraditórios não é bem o mesmo que negociar alinhamento de interesses.

Da mesma forma que uma negociação com experientes investidores financeiros privados sobre a venda de um dos principais activos do sector financeiro em Portugal não pode ser comparada ou utilizada em qualquer outra negociação com as instituições europeias e com os parceiros europeus. Nem mesmo para viabilizar a recapitalização pública da CGD ou evitar sanções da UE.

Não considerando as inevitáveis diferenças nas capacidades negociais de cada interveniente, um processo de negociação política possui características significativamente diferentes de qualquer negociação técnica.

A estratégia de gestão de expectativas, os argumentos políticos e os respetivos objetivos não servem o propósito de uma negociação técnica, na qual as partes estão por natureza limitadas aos argumentos técnicos e necessariamente mais quantitativos.

Por isso já dizia Tsipras, nos saudosos bons tempos do Syriza grego, que queria negociar com os políticos da UE e não com os técnicos das instituições (versão grega da Troika), reconhecendo as enormes diferenças entre uma negociação política e uma negociação técnica, área onde antecipadamente sabia que não teria nenhuma hipótese de sucesso, considerando a desesperante situação da Grécia. No entanto, o sucesso da sua negociação política também está à vista dos gregos.

É assim natural que os políticos tentem transformar uma negociação técnica com Bruxelas sobre a CGD ou sobre sanções por incumprimento técnico de tratados assinados, numa negociação política. À falta de argumentos técnicos ou quantitativos, é o equivalente ao “puxar ao sentimento” em qualquer negociação entre comuns mortais.

O que não é aceitável é a utilização do argumento técnico de liquidação de um banco, no caso de incapacidade da sua venda, na negociação política a favor da não aplicação de sanções, tentando justificar o futuro cumprimento do défice com a não intervenção futura no sistema financeiro.

Apesar de a dissolução estar prevista na lei, usar este argumento numa negociação paralela como dado adquirido, enquanto se negoceia a venda do banco com potenciais compradores, enfraquece ainda mais o já reduzido poder negocial dos vendedores.

Infelizmente é mais um exemplo do que não se deve fazer num processo negocial, a somar a tantos outros erros que se cometeram no sector financeiro português.