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Expresso

Social-Democracia, sempre

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Com uma Europa desnorteada e a atuar a sabor dos acontecimentos, o nosso País vive hoje uma realidade complexa. Um Governo, formado pelo partido que não venceu as eleições, e um Presidente de afetos que não quis apoios partidários.

A situação política poderá ser, de novo, não é um se é um quando, uma fonte de incerteza para a nossa economia, com todas as consequências nefastas que isso acarretará.

De um lado, temos um Governo assente numa coligação que não foi a votos e que está longe de ser um bloco com a homogeneidade e estabilidade necessárias para levar a legislatura, fazendo as reformas que o País precisa, até ao fim.

Apesar de aprovado, o Orçamento para 2016, documento para um horizonte temporal de 7 a 8 meses, deixa maus indícios. Já veio tarde e a más horas, sendo o grau de dificuldade reduzido, pela comunicação social, soubemos de vários pontos de discórdia entre os parceiros de geringonça. Imagine-se o que seria se Bruxelas pedisse maior contenção. E nunca é demais lembrar que o cimento desta coligação era apenas retirar Pedro Passos Coelho e Paulo Portas do poder. O pior ainda está para vir.

A data já está assinalada no calendário. A discussão do Programa de Estabilidade, será a prova de vida da solidez dos “entendimentos” parlamentares à esquerda. Como acomodar tantas visões díspares, num documento a enviar para o exame do Colégio de Comissários em Bruxelas?

A história e a memória são elementos importantes, mas a que na política e na economia, sobretudo no debate público, não se dá o devido destaque. É bom relembrar que foi com um PEC que o segundo Governo de José Sócrates caiu. Agora, crescimento é palavra que parece ausente do léxico europeu. Ficamo-nos pela Estabilidade. Que bem precisamos e, na comparação europeia, poucas vezes a conhecemos.

Todavia, se de um lado somos governados por um Governo "diferente", do outro custa a acertar o passo. Curioso ver a postura do novo Presidente da República. Aliado e alinhado com o Governo, assumiu um papel destacado na discussão da soberania bancária de Portugal.

Passos Coelho tem hoje uma dupla improvável de adversários: Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. As opções que fazemos trazem consequências.

Estamos a uma semana de um Congresso partidário, antecedido de outro que elegeu uma nova liderança. Um país cansado, de política e de políticos, olha para tudo isto e pensa que bonito, bonito era ter mais dinheiro para pagar as contas ao fim do mês. É este o binómio que faz girar o pensamento político e económico das pessoas.

Andámos nos últimos anos a fazer sacrifícios, em prol do saneamento das contas públicas, para os défices continuarem a derrapar. E não é que existe sempre uma razão atendível? Já foi o BPN, o BES, agora é o Banif. A razoabilidade das justificações é indubitável, mas tendo o esforço de todos nós, sobretudo dos mais desprotegidos, sido hercúleo, o défice abaixo dos 3% parece ser o eterno oásis que não aparece, nas areias do deserto escaldante.

Se por um lado temos um Governo apoiado por radicais de esquerda, por outro a postura “liberal” do anterior Governo criou clivagens e abriu espaço político. Tudo se parece resumir à economia. E é no campo económico que o debate vai prosseguir.

Não basta assumir a social-democracia como divisa. É preciso assumir o pensamento e a ação política correspondentes. A economia portuguesa precisa de um equilíbrio entre a consolidação das contas públicas e a promoção do crescimento. Não podemos viver numa guerrilha constante sector público vs. privado. Vivemos anos de desgaste político, económico e social com esta aparente dicotomia. Com culpas dos políticos e dos Partidos.

Contudo mais do que isso, precisamos de pessoas que assumam o bem-estar social como prioridade. Com uma perspetiva de esperança. Não vivemos apenas para as contas nas folhas do Excel. Não podemos ficar reféns de uma Europa à deriva. E esta Europa merece uma postura portuguesa independente, marcada pela defesa dos interesses dos cidadãos e cidadãs nacionais. Não podemos virar costas ao projeto europeu, mas não podemos ser um protetorado de facto do Diretório europeu.

Não são meramente os números que devem quadrar. São as pessoas que devem estar na primeira linha da ação dos nossos governantes. Não há espaço para economias sem pessoas, não são elas os agentes económicos?

Tenho escrito aqui algumas vezes que, na verdade, existe um imenso espaço para os sociais-democratas se assumirem. No espetro político entre o marxismo e o liberalismo existe um espaço ideológico que merece estar melhor representado. Um espaço que apresente soluções e não seja meramente reativo.

Presentemente, vivemos à sombra do mediático, numa espécie de Estado espetáculo. Agora a banca, ontem o terrorismo, antes qualquer vaga de fundo ou causa no Facebook. Sem agenda previamente definida, sem planeamento e sem horizontes. Vivemos ao sabor dos acontecimentos, sem antecipar ou sequer procurar transformar a realidade em algo melhor para a nossa comunidade que, nunca o podemos esquecer, se insere no espaço globalizado. É bom que alguém, com poder de decisão, entenda que está na hora de enfrentar os problemas do Estado e dos cidadãos de frente. Encare que são muitas as famílias neste país que saltam refeições por não terem capacidade financeira.

Não vale a pena viver no passado ou suspirar pelo que já lá vai. Quem hoje tem responsabilidades políticas, na governação ou nos partidos políticos, ou quem aspira tê-las deve dizer ao que vem. O que quer para o futuro de Portugal. Onde queremos estar, em que áreas deveremos apostar, em suma que haja um esboço robusto de um plano de ação e não, como se revela hábito, aprendizagem somente on the job.

Sim, anseio por um social-democrata a sério. Genuíno e sem agendas ocultas. O espaço político está aberto para quem o souber aproveitar.