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Expresso

Leitura “inteligente” dos tratados?

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Quem diria que chegaríamos aqui? Quem podia prever que afinal as contas do Orçamento não iriam bater certo? Como é possível que com mais rendimentos gerados por mais despesa do Estado, menos horas de trabalho dos funcionários públicos e menos impostos, não seja afinal possível diminuir, nem sequer manter, o défice orçamental?

A “leitura inteligente dos tratados” propagandeada na campanha eleitoral das últimas legislativas está finalmente a dar os primeiros frutos. Apesar de não ter tido o apoio da maior parte do eleitorado nas eleições, é mesmo assim posta em prática pelo actual Governo a tão desejada nova leitura. E logo no primeiro embate com a Comissão Europeia. Para mostrar quem é mais esperto do que os outros…

No entanto, tamanho rasgo de inteligência não é acompanhado pelas instituições europeias, e muito menos pelos tecnocratas com profundas dificuldades de aprendizagem que odeiam Portugal e os portugueses.

Nem mesmo os organismos nacionais, outrora tão valorizados pelos partidos da oposição na luta contra o Governo, conseguem agora acompanhar tão rápido raciocínio dos elementos do novo executivo. Certamente devido também a algumas limitações de QI, pois não será certamente justificado por sentimentos de ódio ou pura vingança contra os portugueses.

A pressão dos partidos de extrema-esquerda que apoiam o Governo é forte e nem sempre convergente. A competição entre PCP e BE é definida pela sua agenda própria na gestão do seu eleitorado, tornando o Governo refém da sua estratégia eleitoral e respectiva propaganda de ataque mútuo. Quem diria?

Enviar um projecto de orçamento para a Comissão Europeia, não incluindo no saldo estrutural o impacto da reposição salarial no Estado e do fim da sobretaxa de IRS, é de génio!

Esta alteração unilateral do método de cálculo, em conjunto com a forma como essa alteração foi comunicada, demonstram falta de leitura dos tratados e uma forma pouco inteligente de negociação com as instituições europeias, principalmente quando os políticos portugueses já deveriam saber ler inteligentemente os seus interlocutores na Europa, depois de tanto tempo sujeitos à intervenção da troika.

Negociar com a Comissão Europeia melhores condições para Portugal, tentando aproveitar um panorama mais favorável que o verificado nos últimos 4 anos, é inteligente.

Alterar unilateralmente métodos de cálculo acordados previamente entre Portugal e a Comissão Europeia, ainda que por diferentes governos, para provocar a negociação a posteriori, é pensar que é mais inteligente do que os outros.