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Expresso

Privatização da via pública pela CML, com segurança privada da EMEL

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O estacionamento público constitui atualmente um dos maiores desafios de gestão nas principais cidades. Os centros das cidades, as zonas históricas, os bairros típicos e todas as áreas com difíceis acessos são disso um bom exemplo.

No entanto, o estacionamento privado tem facilitado o trabalho das câmaras municipais, quer através do parqueamento pago pelos escritórios e comércio aos seus trabalhadores e clientes, quer através do parqueamento pago pelos residentes nas suas habitações, desde que localizados em edifícios com parqueamento privativo, interior ou exterior.

Mas o tráfego crescente provocado pela relocalização de escritórios, comércio e habitação para o centro de Lisboa, aumentou o número de visitantes e residentes de forma exponencial.

O conceito de estacionamento público pago, com a introdução pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) dos famosos parquímetros na via pública, era no início justificada através da necessidade de diminuir o tráfego, onerando e limitando o tempo de estacionamento disponível.

O argumento de incentivar a utilização da limitada rede de transportes públicos de Lisboa, penalizando o uso/estacionamento de viatura própria, cedo se mostrou falacioso mas o ímpeto cobrador continuou e está mais forte que nunca.

Dos parquímetros na via pública à concessão a privados de parques de estacionamento público pago, foi um pequeno salto que já é história.

Hoje em dia já ninguém estranha ter que pagar para estacionar na via pública, a qual já paga por via dos seus pesados e variados impostos e taxas.

Das zonas históricas ou de difícil acesso passou-se muito rapidamente a todas as restantes zonas de Lisboa. Já poucos conhecem ruas de Lisboa com estacionamento público gratuito, mesmo que estejam em áreas sem interesse nenhum. Como por exemplo áreas puramente residenciais.

Apesar do sucesso da CML no desenvolvimento desta importante área de negócio, eis que se deixou levar pelas grandes capacidades criativas dos seus talentos políticos e inventa um novo conceito para captar votos e receitas, mas sempre com o nosso dinheiro:

A privatização da via pública, com segurança privada da EMEL contra os criminosos que ousam estacionar o seu carro fora do seu bairro de Lisboa.

É de facto notável que a CML privatize o estacionamento de uma via pública aos seus moradores, para seu uso privativo 24 horas durante todo o ano. E não se trata de um dos muitos bairros do centro histórico, de difícil acesso, mas sim de uma via de 4 faixas de rodagem e com muito estacionamento disponível.

Afinal, os coitados dos moradores não possuem parqueamento nos seus prédios e não aguentam sobreviver à maçada que é andar à procura de lugar de estacionamento nas redondezas.

Têm mesmo que estacionar à frente da sua casinha e por isso não toleram disputar o seu estacionamento privativo oferecido pela CML com outros Lisboetas que estejam disponíveis a pagar parquímetro para lá também estacionarem. Para os moradores não se chatearem, nem existem parquímetros.

Fui informado este mês de Agosto pela EMEL, a troco de 126 Euros (25% do ordenado mínimo nacional porque 60 Euros de multa sem bloqueador não era claramente castigo suficiente) e 1 hora de espera, que partes da Avenida Rio de Janeiro foram privatizadas pela CML aos seus moradores, a pedido destes.

Assim, e apesar de estarem disponíveis mais de 30 lugares de estacionamento numa bela hora de almoço em Agosto, os elementos da segurança privada da EMEL cumpriram lealmente a sua obrigação de defender os moradores, tendo multado e bloqueado mais de 10 carros de criminosos Lisboetas, que tal como eu, tinham estacionado menos de 1 hora.

Espero que a CML, a EMEL ou os moradores usem estes 1.260 Euros para comprar uma lata de tinta e assinalem o parque privativo de forma a conter a fúria criminosa de estacionamento de outros Lisboetas, ainda que em lugares livres.

Talvez a placa de 10 por 20 centímetros instalada junto a uma paragem de autocarro, atrás de um painel publicitário aprovado pela CML não seja suficiente para demover os criminosos numa extensão de cerca de 250 metros, entre o Parque de Jogos 1º de Maio (Inatel) e a Avenida da Igreja.

Mas os criativos da CML e da EMEL esqueceram-se deste pormenor… pois o que interessa é faturar à custa dos Lisboetas!