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&conomia à 3ª

Grécia: agarrem-me senão eu mato-me!

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O Não venceu o referendo na Grécia. E os radicais de esquerda do Syriza aplaudiram. O Não venceu os gregos. E os gregos festejaram. Talvez porque a democracia, o orgulho e a história são dos gregos.

Afinal o que faz falta é mesmo animar a malta, pois mais vale ser pobre com orgulho do que pobre indignado. Mas infelizmente sem dinheiro não há palhaços, pelo que o amor e uma cabana talvez não sejam suficientes.

Mas concerteza o Syriza terá pensado nisso e também terá uma solução milagrosa para arranjar dinheiro, pois não iria submeter o seu povo a um exercício de experimentalismo académico, contando apenas com a ajuda da Troika, que recusou alegremente e que tanto desdenhou.

Da mesma forma, seguramente que Tsipras não convocou o referendo porque sabia que a proposta que estava disponível a aceitar, e que foi a referendo, não iria ser aceite pelo Syriza e pela coligação no parlamento grego.

Apesar de saber que este chumbo no parlamento iria levar a um impasse político que poderia forçar a sua demissão e a convocação de novas eleições pelo Presidente grego.

Este seria até o desfecho preferido da Troika, que já deveria sonhar com o regresso de Samaras ao poder. E Tsipras não podia permitir ser apagado assim da história.

A convocação do referendo foi uma habilidade política de Tsipras, que sem ter nada a perder e estando à beira do precipício da sua carreira política, decidiu dar um passo em frente. Os gregos seguiram-no porque também pensam que já não têm nada a perder. Certamente porque não sabem o que os espera num cenário de insolvência. Tsipras não explicou...

O problema é que a vitória do Não foi demasiado expressiva para possibilitar à Troika salvar a face. Se a votação tivesse sido mais equilibrada, a Troika poderia justificar um recuo nas suas posições com o argumento que quase metade do povo grego queria a sua ajuda.

O extremar de posições que o referendo provocou, levou à euforia dos gregos na oposição à Troika e à Europa. A quem tem que pedir agora ajuda. Tsipras saiu fortalecido do referendo, à custa do seu povo que pensa ter depositado a sua sorte nele. Quando na realidade ficou ainda mais nas mãos dos credores.

Esta estratégia de guerrilha do “agarrem-me senão eu mato-me” levada a cabo pelo Syriza vai piorar a situação do povo grego e levanta muitas dúvidas nos restantes países europeus que cumprem as regras. A recuperação será ainda mais difícil daqui a algumas semanas.

Apesar de ser característica da natureza humana medir forças, não há tempo para medir orgulhos, egos, democracias, créditos, dívidas e outras razões legítimas de desacordo.

A Europa e a Grécia precisam de tomar uma decisão política de fundo. A Grécia precisa de decidir, de uma vez por todas, se quer continuar no Euro. Se quiser, terá que cumprir as regras que os demais países cumprem, para ter as mesmas vantagens com as mesmas obrigações.

A Europa precisa de decidir se quer dar a derradeira oportunidade à Grécia para começar de novo. Ou quase.

Para isto, as democracias dos restantes 18 países membros do Euro terão que decidir qual o tipo de apoio que querem dar à Grécia. Se querem que a Grécia continue no Euro ou se apenas querem dar apoio humanitário ao povo grego.

Isto da democracia nem sempre corre de feição...

O mais provável é as 18 democracias decidirem apoiar a manutenção do povo grego no Euro. Um novo programa de bail-out que inclua um perdão ou reestruturação de dívida deverá agora ser antecedido por um bail-in que inclua um hair-cut aos depósitos gregos.

Este poderá ser um dos preços a pagar pela democracia. Que concerteza os gregos pagarão com orgulho. Daqui a umas semanas.