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Expresso

Grécia: agora sim, é só para adultos!

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Christine Lagarde já devia saber que deveria ter cuidado com o que deseja, pois pode vir a concretizar-se. Ou perto disso. Lagarde pediu uma negociação com adultos e vai ter uma negociação só para adultos. Algo se terá perdido na tradução do desejo de Lagarde em grego.

Começou assim esta semana o concurso de virilidade Mr. Europa, com a participação especial de Varoufakis e Tsipras que desafiam os campeões em título Merkel e Lagarde.

Os gregos sempre quiseram forçar um acordo político, em vez do acordo financeiro que os credores queriam impôr, porque era o único que poderia incluir um novo perdão de dívida.

A gestão de expectativas feita pelos gregos sempre foi feita acenando com a  obtenção de um acordo para breve, empurrando a Troika com a barriga. De semana em semana chegámos aqui, onde finalmente todos perceberam o que os gregos realmente queriam.

Pelo caminho conseguiram obter 89 mil milhões de Euros do BCE sem nenhuma garantia, emprestados pelos restantes contribuintes europeus, para compensar os milhões de Euros que os gregos levantaram dos bancos gregos, enquanto puderam.

O governo grego não tem nada a perder com o desfecho do referendo do próximo dia 5 de Julho.

Se os gregos decidirem aceitar a proposta da Troika, Tsipras não será responsabilizado por não ter cumprido as promessas eleitorais e continuará a governar com a consciência tranquila, como todos os restantes políticos do Universo.

Se os gregos decidirem rejeitar a proposta da Troika, será o mesmo que referendar a saída do Euro, que é afinal o que Tsipras quer desde o início. E por isso recomenda agora o voto no “Não”. Esta era uma das cartas que alguns membros do Syriza diziam que Tsipras ainda tinha...

Os efeitos e a importância de um referendo ao plano de resgate da Grécia já eram bem conhecidos dos gregos, da Troika e especialmente de Tsipras.

Já em 2011, o Primeiro-Ministro socialista da altura, Georges Papandreou, tinha ameaçado a Troika com um referendo deste tipo. Apesar do choque e da fúria causados pela traição dos gregos, também nessa altura assim considerada, os líderes europeus conseguiram convencer Papandreou a recuar, com a ajuda de Durão Barroso. Dessa vez.

Já nessa altura Tsipras considerava ser má ideia referendar-se o programa de resgate, pois defendia que seria o mesmo que referendar a saída do euro.

Dizia então Tsipras em 2011 que “...se o primeiro-ministro grego puser o povo perante esse dilema, o verdadeiro incumprimento será inevitável, sendo que os bancos e a economia grega vão colapsar antes de chegarmos a eleições. Só a possibilidade de o povo poder ser posto perante este dilema pode levá-lo a votar “Não””.

Entrámos em águas desconhecidas esta semana e ninguém sabe onde tudo isto vai desaguar... mas todos fingem estar convencidos das suas decisões. Mas não estão. Porque não podem estar.

Isto sim é política como os gregos queriam, teoria dos jogos, bluff, roleta russa e playing chicken ao mais alto nível. E só para adultos! Vamos ver se o mexilhão aguenta...