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Expresso

&conomia à 2ª

O fim das quotas leiteiras

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No passado dia 1 de Abril deu-se um acontecimento de elevada importância.

Não, não me refiro à saída de António Costa da Câmara Municipal de Lisboa, pois por lá, certamente ninguém notou a ausência.

Hoje falo da produção de leite. O leite que nos chega a casa. Um produto alimentar que nos faz companhia, logo ao início do dia. A propósito de leite, tenho um grande amigo que costuma fazer uma questão de sensibilidade social quando conhece alguém. No meio de uma conversa faz sempre a questão: Desculpe, mas sabe quanto custa 1 litro de leite?

Não venho falar apenas do preço do bem.

Quero abordar um tema que tem impacto no preço do consumidor. Falo do fim das quotas leiteiras na União Europeia, no âmbito da PAC (Política Agrícola Comum). Dia 1 de Abril era o timing definido e conhecido por todos. Há anos. Muitos anos.

O regime de quotas leiteiras foi criado em 1984, mas já desde 2003, com rectificação em 2008, que estava estipulado que 31 de Março de 2015 seria o último dia.

Estima-se que mais de 90% do leite produzido na União Europeia é comercializado no mercado interno europeu. Situação que o sistema de quotas veio fomentar mantendo o equilíbrio da produção face às necessidades do mercado.

No entanto, por pressão do lóbi agrícola (muito visível, por exemplo em França) ou por outro tipo de visão, o futuro já era "conhecido". Sabíamos que iria acabar e apesar de, no horizonte temporal de então, o ano de 2015 ser um ano lá para a frente, acontece que finalmente chegou.

As ondas de choque já se sentem. No nosso país, em especial na Região Autónoma dos Açores. Para termos uma noção, segundo os dados mais recentes, metade da economia açoriana assenta na agro-pecuária e, dentro dela, o leite pesa mais de 70%. É um peso bem pesado, passe o pleonasmo.

Se por um lado, podemos compreender o sentimento de quem viveu dentro deste quadro, por outro, mesmo com o incentivo que a Comissão Europeia já dá através de uma dotação específica para as regiões ultraperiféricas, não podemos deixar de ficar perplexos com a falta de planeamento e capacidade de antecipação.

Olhemos para o exemplo irlandês. Lá a PAC é a mesma, regras iguais às dos Açores. E o que fizeram? Começaram a tratar da vidinha cedo, logo em 2010. Mais eficiência, maior capacidade instalada para aumentar a produção, começaram a investir à séria em inovação. A tal palavra gasta e pomposa. Os efeitos são o aumento de produção, com maior eficiência no uso dos recursos, logo produção mais competitiva, no mercado, que agora ficará totalmente aberto à concorrência, onde franceses e alemães são a maior ameaça competitiva.

O mundo é mesmo global. Não podemos viver fechados nesta Europa velha. A competição está aí, ao virar da esquina. Quem se adapta, quem procura perceber o que de melhor se faz e como pode ganhar economias de escala e obter ganhos de eficiência, vai um passo à frente dos rivais.

Enquanto na Irlanda se vê esta situação como uma oportunidade, por cá reclamamos por mais um subsídio. Não digo que não seja complexo, ou não estivéssemos perante um forte impacto económico e social, mas digo que a mentalidade, a que o mundo de hoje nos obriga, não se coaduna a ficar de chapéu na mão, à espera do cheque de Bruxelas.

Da Irlanda vem ainda a ideia de que é um dos lugares mais baratos para a produção de leite, pela qualidade dos seus pastos,que juntamente com o clima permitem manter as vacas ao ar livre mais tempo. Fica aqui esta humilde sugestão, de quem não é engenheiro agrónomo. E propunha mais uma. Porque não se a aposta na produção de leite de búfala? Poderia, após uma cuidada avaliação, revelar-se uma alternativa mais rentável.

Posto isto, estou consciente do ponto crítico em que nos encontramos. A grande preocupação para os produtores, sobretudo dos Açores, será quando chegarem ao mercado produtos lácteos oriundos dos pesos-pesados da produção leiteira a que já acima aludi, bem como do Reino Unido ou Polónia.

Era uma preocupação, também, de um insigne especialista agrícola e que muito fez pela agricultura em Portugal, no nosso país e em Bruxelas, Armando Sevinate Pinto, que partiu na semana passada e de cuja sabedoria sentiremos a ausência.

Este é, como procurei na minha qualidade de leigo explicar, um tema complexo e importante. É o mercado a funcionar. Na sua plenitude. Com as disfunções de uma Europa a várias velocidades, que concorre com países emergentes muito competitivos e sem preocupações sociais e ambientais a respeitar. É um enorme desafio o que temos pela frente.

Ah e é verdade, o litro de leite meio-gordo anda pelos 64 cêntimos se for Mimosa e os 79 cêntimos se for Vigor.