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&conomia à 2ª

Mariano Gago e Diogo Vasconcelos

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Partiu este mês mais uma figura importante do nosso país. Novo, novo demais para partir. As honras naturais nestes períodos são merecidas. As palavras e as obras ficam. O Homem é sempre recordado quando parte. Justamente. No entanto, com a partida de Mariano Gago importa também voltar a falar e a pensar em temas que ele nos trouxe e colocou na agenda.

Foi um Ministro dos mais duradouros em democracia. Atravessou os Governos de António Guterres e de José Sócrates. Foi um impulsionador da ciência, da investigação e da inovação. Com critério, foi um dos criadores do Plano Tecnológico do Governo Sócrates. Uma boa ideia que o país conheceu e que merecia hoje ser mais aprofundada.

Para lá do tema do Ensino Superior e da Educação, igualmente importantes, colocou na agenda a reforma dos laboratórios do Estado, o investimento em ciência, a reforma dos organismos para que fomentassem a Inovação. Li alguns editoriais e só posso concordar. Este foi um Ministro que colocou a ciência no mapa, na agenda política. Muito do chamado sistema científico nacional foi impulsionado por ele. Sabia, como muitos disseram, que sem ciência, sem uma aposta em equipas qualificadas e preparadas não podemos ter capacidade de resposta para os desafios futuros. Era um homem discreto, mas com substância.

Esta partida fez-me recordar outro homem. Diogo Vasconcelos. Mais uma figura importante que partiu cedo demais. Mais um impulsionador da inovação e do empreendedorismo. Mas que sabia o que significavam estas palavras. Tinha uma forma de ver o mundo e encarar a crise como a antecâmara de uma nova fase de crescimento. Optimista, dirão muitos. Certo. Mas como o próprio diria: "O medo afecta muitas sociedades desenvolvidas e o pior que pode acontecer é as pessoas pensarem que são um fardo para a própria sociedade." Tão certeiro.

E como vencemos nós o medo, a paralisação de uma sociedade ou a crise de um país? Fazendo-nos à vida. Ou como diriam Mariano Gago e Diogo Vasconcelos: inovando.

E de facto, eles tinham razão. Eles têm toda a razão. E o país não pode apenas falar em investigação, inovação, criatividade e empreendedorismo. É preciso fazer, ou seja, tomar medidas.

E estes dois senhores tomaram e procuraram criar o ambiente propício à inovação.

Portugal é hoje, recorrendo a Esopo, um país cigarra no que à inovação diz respeito. Quem o afirma é o estudo do Barómetro de Inovação COTEC Everis. Ocupamos o 29º lugar, um lugar à frente da nossa vizinha Espanha. Mas neste Barómetro é interessante ver a evolução de alguns dos indicadores.

Olhar para estes indicadores é percepcionar os efeitos da aposta de Mariano Gago. Em particular não só a qualidade das instituições, mas também o facto de Portugal estar entre os 10 países com maior número de investigadores em I&D (Investigação e Desenvolvimento) por milhão de habitantes que resultam da continuidade de uma política pública favorável. São temas que merecem destaque e que merecem o elogio. Nem tudo o que vem detrás é mau,  a cor política não nos deve toldar o discernimento, também há medidas bem desenhadas e que merecem ser mantidas. Tanto que todo este trabalho tem vindo a dar frutos no reconhecimento internacional destes investigadores de excelência, muitos ganhando prémios e distinções internacionais e outros conseguindo financiamentos significativos para os seus projectos.

Noutro patamar encontramos o indicador Despesa Pública em I&D em percentagem do PIB. Estando Portugal bem posicionado nos primeiros quinze lugares.

São indicadores, que revelam uma boa base de partida. O caminho tem muito para ser trilhado. Tem muito para ser trabalhado. A inovação é, como já muitos dizem: 1% inspiração e 99% transpiração.

Mas esta forma de estar pressupõe mudanças. Pressupõe mais do que entusiasmo retórico no tema e muita determinação, para fazer o que ainda não foi feito. Dizia Diogo Vasconcelos e bem que: "Não basta corrigir o passado, é preciso preparar o futuro. Isso significa promover a inovação social, fomentar o empreendedorismo e focar os recursos escassos nas actividades que irão criar mais empregos. Tudo isso implica uma ruptura com a lógica actual. A dicotomia Estado/Mercado está ultrapassada. Precisamos de reforçar as capacidades da sociedade encontrar novas respostas. É possível criar emprego e simultaneamente dar resposta a necessidades sociais."

É muito por aqui que se fará o caminho.

Fica a lembrança de dois senhores distintos em estilo e em partidos, mas que fizeram e lutaram muito por um Portugal mais bem preparado para enfrentar o século XXI. Um bem-haja aos dois.