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Expresso

&conomia à 2ª

Desejo para 2015? Bom senso

Estamos a chegar ao terminus de 2014. Não é só o calendário que o diz, mas as inúmeras citações de figuras e as inevitáveis escolhas dos momentos mais importantes do ano. 

Chegamos ao tempo próprio para balanços e reformular desejos. 

Mas que ano foi este! Intenso, imprevisível e desgastante, uma verdadeira montanha russa que levou as emoções, de todos nós portugueses, a novas alturas. A nível político e, como todos sentimos, mormente a quem o emprego falta, a nível económico, vivemos tempos de enorme volatilidade. O que era certo virou incerto. O que era dado como garantido é cada vez mais posto em causa.

Presenciamos a Troika abandonar o país, salvo seja, porque continua o escrutínio da dita ao cumprimento do trilho traçado. No entanto, o País resgatado conseguiu começar a dar alguns sinais de estar a dar a volta e chegar ao dia em que não vive ferreamente, de acordo com um guião já escrito.

Assistimos a um Governo que foi irrevogável, mudar as peças e resistir na sua marcha. Vimos um líder da oposição cair após vencer, se bem que com margem reduzida, umas eleições europeias. Antes tínhamos visto o putativo candidato, agora novo líder da oposição, dizer que não o queria ser, porque ser líder de oposição era muito difícil de conciliar com, as responsabilidades e deveres para com o eleitorado, ser Presidente de Câmara. Assistimos estupefactos e decepcionados à eliminação da Selecção Portuguesa, na Copa do Mundo,  de forma pouco airosa. Vimos um Banco, o epítome da eficiência e resiliência, diziam alguns o mais influente do País falir e uma família, da galeria das notáveis, ruir. Vimos uma empresa, outrora uma jóia da coroa, uma marca sinónimo de confiança, um campeão nacional, fruto da incúria e da má gestão, andar a ser disputada e arrasada perante os nossos olhos incrédulos. Vimos o esboço, do que, a seu tempo saberemos se assim é, se pode considerar uma rede instalada de corrupção dentro do Estado em entidades nevrálgicas da soberania nacional que deveriam zelar pela segurança das nossas fronteiras, pela vigilância da circulação de pessoas, bem como via Schengen as da Europa. Foi a primeira vez que um dirigente máximo de um órgão de polícia foi detido, não há precedente, em democracia ou antes do 25 de Abril. Vimos, facto que a todos, críticos e apoiantes, deixou chocados, um ex-Primeiro-Ministro ser detido preventivamente, no âmbito de um processo judicial cujo desfecho será determinante para o futuro do país e do regime. Vimos isto tudo e sentimos que estamos vulneráveis, percorre-nos a vertigem de nos faltar chão firme debaixo dos pés.

Por tudo isto, é tempo de juntar os cacos e começar a pensar o país à séria. E, já que estamos a atravessar esta quadra, nada melhor do que começarmos pelo princípio. Pela pessoa humana. Pelo português. O velho Zé-Povinho. O autêntico que tem um pouco de todos nós. É para as pessoas que tem de ser desenhada a resposta económica e política, adequada também aos tempos duros que enfrentamos. É na dignidade da pessoa humana, que radica a medida do nosso sucesso. O ponto de partida deve ser, de que nos serve a economia senão para melhorar o bem-estar social? A quem serve a ditadura dos mercados?

Existe um amplo debate a ser feito na busca do bem comum. É o cerne do papel do Estado. Há também uma linha ética pela qual se deveriam reger os mercados e as empresas. Uma linha clara de postura e actuação. Não chegam bons relatórios de sustentabilidade social das empresas, se depois os fornecedores, trabalhadores ou qualquer outro stakeholder é beliscado ou, não raras vezes, cilindrado em nome do lucro, a bússola, a responsabilidade fiduciária para com os accionistas, que, até saem chamuscados, pela fogueira do interesse próprio de alguns gestores. Nesta quadra, pensar e agir em função da dignidade da pessoa humana, seria um bom ponto de partida para várias organizações. Estamos carentes de uma linha ética.

Não devemos olvidar o papel do Estado, no combate das injustiças e é esse o padrão da acção governativa futura. É aí que devemos ponderar e colocar a enfase e o empenho. As políticas redistributivas, tão faladas no, sempre citado, modelo nórdico exigem um Estado bem gerido, com a devida transparência e escrutínio de cidadãos atentos e bem informados. Não há um bom Estado sem cidadãos atentos e exigentes e vice-versa. 

Existe também uma excepção geracional, em risco de virar regra, estamos perante, falando na geração dos 20 e 30 anos, a primeira geração que irá, em média, repito, em média, ganhar menos que a dos seus pais. Isto é um retrocesso social tremendo e acarreta, também, inúmeras consequências para a sociedade, conforme a conhecemos. Temos o impacto demográfico, que se manifesta na necessidade crescente de apoio e assistência social, bem como a garantia da sustentabilidade das reformas no futuro. Se a esperança média de vida cresce, o número de mais velhos aumenta, se a base, de população em idade activa, diminui e se essa base tem menores salários, isto obriga a um novo modelo de sociedade e a novas respostas no futuro.

São temas que deixo para reflexão. Temas aparentemente dispersos, mas que se tocam. Temas que merecem de todos, actores políticos, empresários, especialistas e sector social uma resposta ponderada. Todos estamos ligados em comunidade e todos devemos perceber que não há respostas que são só para os outros encontrarem.

O meu desejo para 2015, em jeito de Miss, vai mais além do que o singelo  paz na terra. 

Para o novo ano, que caminha a passos largos, peço bom senso. 

Pensemos por exemplo no caso da TAP, com uma greve gravosa para muitas famílias portuguesas, com a demora do Governo em mostrar o caderno de encargos e os sindicatos a prejudicarem uma empresa em frágil situação financeira, ou no caso, mais rocambolesco, da multa ao bombeiro, que conduzia uma ambulância do INEM, por parar na auto-estrada e ao ser declarado o óbito se recusar a mover a viatura (cumprindo o seu dever legal, pois as ambulâncias do INEM não podem transportar corpos cujo óbito tenha sido declarado) perante a insistências dos agentes de autoridade (já agora onde parou o senhor agente a sua viatura?), são com estes casos exemplificativos  e tantos outros, que percebemos o desajuste entre as decisões e a falta de bom senso. Não gosto do politicamente correcto, só porque sim, na gestão e nas palavras, mas desde que haja dignidade, respeito e bom senso já teria esperança num bom 2015. 

Fica o desejo.