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Expresso

&conomia à 2ª

Cuba Libre

Esta quadra leva-nos sempre a olhar o mundo e a vida de outra forma.

Não dá para fugir, nem dá para ficar imune ao espírito natalício.

Mas que ano foi este! Intenso, imprevisível e desgastante. A nível político e económico, vivemos tempos de enorme volatilidade. O que era tradicionalmente dado como certo virou incerto. O que era senso comum é cada vez mais posto em causa.

No entanto no meio deste turbilhão houve um presente de Natal inesperado. Agindo com o silêncio que caracteriza a diplomacia, a eficaz entenda-se, os Estados Unidos da América e Cuba selaram um acordo histórico. Por estarmos a vivê-lo não conseguimos o distanciamento devido, no entanto, este acordo ficará nos livros de história. Um dos últimos resquícios da Guerra Fria acaba com este reatar de relações.

Barack Obama, depois de ser a encarnação da esperança na terra, o homem providencial que iria salvar o mundo, depois de reeleito e de sofrer uma derrota, nas eleições intercalares para o Congresso, já este ano, conseguiu salvar o seu mandado e quiçá o seu legado.

As relações entre Cuba e os EUA são um provável caso de estudo das relações internacionais. Desde 1961 que não existia qualquer relação diplomática, nem política ou económica, entre os dois países. Fidel Castro foi um dos responsáveis que levou ao embargo económico e que perdurou no poder, enquanto iam mudando os inquilinos da Casa Branca e se demorava Fidel nos seus discursos incansáveis contra os americanos e o figadal inimigo capitalismo.

É caso para dizer, agora sim Obama merece o Prémio Nobel. Depois da insensatez que foi a sua entrega em 2009, agora sim seria adequado.

O mundo de hoje, sobretudo, no Ocidente e em especial as gerações mais novas, já não tem na guerra a arma para dirimir conflitos entre países. Já não é o passo inevitável perante um confronto entre nações. Esta mudança de paradigma merece por isso uma mudança de relacionamento e de postura. Que sentido faz viver aprisionado pelas guerras e numa mentalidade de guerrilha do passado? Cuba apesar da sua proximidade aos EUA vive numa pobreza e num mundo quase à parte. As histórias das dificuldades no acesso aos bens, resolvidos pelo mercado negro, as formas criativas de garantir a comercialização de produtos que os cubanos tão bem produzem, criam um país de contrastes com os quais é difícil viver, num local que se quer estável e aberto a todos. Como o mundo.

Vimos também a segunda derrota Putin numa semana. Depois da crise cambial com a queda aparatosa do Rublo, os preços a dispararem, de novo as prateleiras vazias, nos supermercado moscovitas, e o Banco Central Russo a gastar as suas divisas e a subir taxas de juro, correndo atrás do prejuízo, vem a notícia de que o adversário de sempre volta a relacionar-se com um aliado de outrora.

O mundo não está para o regresso de guerras frias, nem de Tratados de Tordesilhas.

Não podemos, ignorar e deixar de relevar o papel crucial, desempenhado por actores relevantes que muito contribuíram, para este acordo histórico entre Obama e Raúl Castro. Destaco duas personalidades ímpares. Nelson Mandela. Sim, mesmo tendo partido deste Mundo, foi a celebrar a sua morte que os dois líderes, Obama e Castro, começaram a construção do caminho para o entendimento. Por vezes, um aperto de mão tem mais força que muitas cartas, discursos, uma bala ou um míssil.

Devemos lembrar também o papel de um grande líder espiritual e de proximidade que temos entre nós. O Papa Francisco foi decisivo, como fizeram questão de reforçar os protagonistas. É um papel meritório que merece o apoio de todos. Na verdade, foi uma bênção para este mundo a eleição de Francisco. Um homem simples. Como coloquialmente dizemos "um senhor". Um senhor que nos inspira, com a sua palavra e o seu exemplo e que nos transmite esperança, apenas por ser como é. Um exemplo raro, de um líder "humano". Uma lufada de ar fresco neste mundo bélico, sem cor e sem amor.

Fica a tónica para esta quadra e para os tempos que aí vêm.

Um Santo e Feliz Natal a todos.