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&conomia à 2ª

Crise de confiança

Não é uma expressão nova, muito menos original. Ando às voltas com as palavras e não chego a outra palavra para descrever os últimos acontecimentos.

As instituições vão funcionando. Ouvimos, vezes sem conta, os normais chavões do momento: a justiça segue o seu caminho, independente da política. Como tem de ser, acrescento eu. Mas, aqui na ocidental praia lusitana, os dias não estão fáceis e a culpa não é das chuvas. Em quem podemos confiar? As instituições financeiras colapsam e demonstram uma fragilidade enorme, as instituições reguladoras, por norma depois das ocorrências, vêm a terreiro dizer: nós sabíamos, mas não temos meios, instituições e organismos do Estado, em áreas vitais como a Administração Interna e a Justiça dão-nos sinais preocupantes, no entanto esta falta de confiança sublimou-se com a detenção de José Sócrates.

Li muitas opiniões, explicações e interpretações sobre este momento. Penso que a divisão que ocorreu, fruto também da enorme controvérsia que o nome de José Sócrates levanta, é natural nestes tempos crispados e já vem detrás.

Todos sentimos que o tema é grave e deve ser tratado com a devida ponderação e racionalidade. Somos um país que alimenta novelas, polémicas, boatos e, não raras vezes, dado a estados de alma. Somos também um país em que o segredo de justiça é lei oca, sem aplicação eficaz. Somos um país que tem defeitos na política, com interesses económicos e movimentação de influências, na justiça, que falha e é lenta, e também na comunicação social, muitas vezes tendenciosa e especulativa. Sabemos de tudo isso e com tudo isso vivemos enquadrados pelas leis que temos. Ora, todo este caos na vida pública em Portugal merece reflexão, contudo merece também muita serenidade.

Obviamente os ecos das notícias chegaram rapidamente lá fora. Hoje uma notícia em Portugal galga fronteiras, à velocidade de um qualquer tweet ou sms. Não podemos ignorar que no fim tudo se sabe.

Continuo a achar que a justiça deve, seguindo os trâmites legais, seguir o seu caminho. Mas quando afirmamos esta doutrina, não podemos correr a vociferar, sem forte motivo, contra o modo como decorre e progride.

Consequências políticas? Claro que sim. Estamos hoje confrontados com suspeitas de crime que recaem sobre um ex-Primeiro-Ministro. Que nos governou sete anos. É uma parte da história do país, que pode estar em causa.

Compreendo hoje o esforço de um lado e a tentação do outro. António Costa foi eleito com ecos de Sócrates. Seguro não era um líder capaz, não defendia os valores da governação de Sócrates. Penso que todos olham para esta situação e estão curiosos com o que pensará, de tudo isto, António José Seguro. Passemos à frente, António Costa teve uma declaração inicial muito acertada, demonstrando que aprendeu as lições do caso Casa Pia. A forma de estar também conta. Sendo que fez escola, nas hostes socialistas, a sua postura, com raras excepções sobressaindo Mário Soares, que, nada de anormal visitou um amigo em Évora, porém esteve muito mal nas declarações que fez à Comunicação Social. É um ex-Presidente da República e deve manter uma pose de Estado colocando-se acima de qualquer questão judicial, tanto mais que a separação de poderes é um princípio basilar de qualquer democracia.

Do outro lado, há a tentação, por parte da maioria, de explorar este caso, para eventuais ganhos políticos. Não o deve fazer. De todo. O sentimento popular hoje é claro, cada vez mais claro, são todos iguais. E sendo todos iguais, de acordo com o vox populi, todos estes casos, dos Vistos Gold à detenção de Sócrates, afectam significativamente a imagem pública dos políticos. Esqueçam a captura apenas de um determinado Partido ou família política. Estão todos no mesmo barco, aos olhos dos portugueses. Este é mais um desafio a que a actual classe política terá de saber responder. E isso passa também pelas atitudes e a postura de cada actor político. Só assim se reabilitará a confiança, que é um valor essencial ao bom funcionamento do País.

O tempo político de Sócrates já passou, foi um Primeiro-Ministro levado em ombros até ao poder, da esquerda à direita. Sim, já lá vão quase 10 anos, mas de Sampaio a Cavaco, (quem não se recorda do artigo da Lei de Gresham?), todos contribuíram para a chegada do "animal feroz" ao poder. Não sei o que pensaram estes estadistas, face a tudo o que aconteceu. Foi um Primeiro-Ministro controverso, com algumas boas reformas, reconhecidas de uma maneira geral, e outras medidas más, que conjugadas com uma envolvente internacional adversa, ajudaram o País a chegar ao resgate.

Mas sei que José Sócrates ou qualquer português merece uma justiça justa e célere. O ruído mediático à volta tem a ver com quem é e os cargos que desempenhou.

Será esta detenção prejudicial para a imagem de Portugal e para a nossa economia? Bom, basta ler os jornais por esse mundo fora. Sarkozy, Berlusconi, aqui ao lado na vizinha Espanha ainda esta semana, todos os dias se publicam novos casos e novas histórias. O que afecta um país não é meramente a percepção de corrupção, mas sobretudo a manutenção desses meandros, por falta de acção no seu combate e punição. São nos países em que as democracias não funcionam que a corrupção é um padrão. Se o regular funcionamento das instituições se mantiver, penso que em nada afectará Portugal. A bem de Portugal, que se faça justiça de forma desapaixonada e isenta.

Mas atenção! A justiça também está debaixo dos holofotes. A avaliação da sua prestação não será feita agora, a quente, mas terá lugar no futuro. Não podemos cair na tentação de uma República de Juízes. Seria o pior que nos poderia acontecer. Também devemos ter capacidade de confiar na justiça e para tal deve ser garantida a devida separação entre fazer justiça e ser justiceiro. Em Itália sucedeu-se algo do género e a justiça não saiu reforçada. O papel de cada instituição deve estar bem estipulado e deve ser prosseguido com independência, sem cair em excessos.