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Expresso

&conomia à 2ª

Armadilha da ruptura geracional

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Por estes dias a política e a economia animaram com a mudança geracional. Vêm aí os novos que vão afastar os velhos. Esta ruptura será a panaceia para um regime em crise.

Esta deriva geracional levada ao extremo é bastante perigosa, pois implicaria uma descriminação etária.

O mundo é como é. Com as suas idiossincrasias e vicissitudes. Não vale a pena clamar por mudanças, olhando apenas à data de nascimento, inscrita no cartão de cidadão.

O espaço para rupturas geracionais nomeadamente na política, não raras vezes, é um espaço nebuloso e perigoso. O 25 de Abril marcou o corte com um regime e obrigou a uma parte, sobretudo de jovens, a chegarem-se à frente e assumirem cargos de liderança. É essa geração que ainda hoje lidera, tendo contribuído para uma certo mal-estar nos que ficaram abaixo. Foram jovens que cresceram a ambicionar o topo, mas com o topo tapado. Foi esta situação que deu origem aos cíclicos grupos de jovens turcos, cujos membros, como é evidente, vão mudando, mas tendo em comum, a busca da ocupação do lugar, a que pensam ter chegado a sua vez de ascender.

Olho para estes fenómenos com a certeza de que não há data de nascimento garanta competência e capacidade. A renovação geracional, de per si, não resolve todos os problemas. Por mais cantos de sereia que se apontem a novas formas de estar, conhecimento de novas tendências, domínio da linguagem mais refrescante e vivência tecnológica.

Os exemplos não são famosos. Olhe-se para os casos de alguns políticos que chegaram jovens e se perderam nas encruzilhadas da vida. Olhe-se para o tão badalado corte geracional de empresários e gestores promovido pelo Compromisso Portugal e onde andam hoje. Aliás, a propósito de gestores portugueses, um estudo recente coloca Portugal na cauda da Europa, em matéria de práticas de gestão. Um retrato de um país que monitoriza muito, mas incentiva pouco.

Cada qual terá o passo a dar. Assente na continuidade, sem perder a solidariedade intergeracional. Um tema que surgiu como sexy, mas que deve ser mesmo aplicado. Proclamar sem implementar é moda em Portugal. Mas começa a ser hora de fazer diferente. Aí sim. É na continuidade e na complementaridade que está o ganho. Não basta ser jovem para se ser líder. Um jovem pode e bem assumir posições de liderança, fazendo uma ruptura na continuidade, porque, é de elementar bom senso, nem tudo o que vem do passado é mau.

A ligação entre gerações é um ganho maior do que muitos títulos académicos. A partilha de conhecimento, de experiências e de vidas é a base de uma continuidade e de uma melhoria incremental clara. Enchem a boca com a cultura de aprendizagem não temendo o erro, todavia, não convém cair em experimentalismos sem ter conhecimento prévio, tanto mais que o conhecimento da história permite evitar a repetição dos mesmos erros.

Pior cego é aquele que se acha capaz e já sabe tudo, onde os outros falharam.

Por mais vontade, por mais sede de poder, a grande preocupação geracional deveria ser outra. Porque nós jovens viveremos em circunstâncias económicas menos auspiciosas, do que  a geração dos nossos pais. Isso sim é um hiato geracional a ter em linha de conta.

Este país é de todos. Velhos e jovens.