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Expresso

O impasse na política portuguesa

Não quero entrar em grandes lições históricas ou elencar uma lista de casos de estudo da Ciência Política. No entanto, é mais ou menos consensual que, ao longo das últimas três décadas, o debate político português andou em torno das questões económicas, salpicadas pelos temas sociais e morais fracturantes, mas o foco, dadas as opções erradas do passado e as crises económicas internacionais, sempre foram as finanças públicas, mais ou menos sãs, o défice, as exportações, o ajustamento, a capacidade de convergir ou não para a média europeia. A economia no centro do debate político. Penso que deste ponto partimos de opiniões relativamente consensuais.

O próximo ponto talvez não seja tão unânime na sociedade portuguesa, mas, desculpando desde já o enviesamento político de quem escreve estas linhas, sempre vi o debate político passar-se entre o rigor e respectivo discurso de ajustamento inevitável do PSD e a aposta no investimento público e respectiva interpretação lata da restrição orçamental pelo PS. Foi assim com Mário Soares e Cavaco Silva. Foi assim com Cavaco Silva e António Guterres. Foi assim com António Guterres e Durão Barroso, quem não se lembra do discurso da tanga? E continuou a ser assim, depois entre Pedro Santana Lopes e José Sócrates, com os numerosos empregos prometidos, o choque tecnológico e as grandes obras públicas no centro do debate, passando para José Sócrates e Manuela Ferreira Leite, passando mais tarde para o debate Sócrates e Passos Coelho. Todos tiveram na base a divergência quanto à perspectiva com que encaravam o rigor orçamental, o cada vez mais perene elefante na sala da política portuguesa.

Diziam-nos até que havia mais vida para lá do défice. Consensual, portanto.

No entanto, no panorama político português emergiu António Costa. Que não ganhou, com o maior número de votos, as eleições. Que não aplicou o modelo económico prometido no programa eleitoral. Sim, eu tenho memória e recordo-me do estudo macroeconómico, do grupo de economistas liderados pelo economista estrela do Banco de Portugal Mário Centeno, que depois o Ministro Mário Centeno certamente colocou na gaveta, talvez a mesma onde o PS guardou o socialismo. Mas o ponto não é esse.

O ponto é que desde que António Costa lidera o Governo, com os resultados orçamentais conhecidos. E apesar das bases frágeis deste aparente sucesso, e bem tenho explicado o carácter efémero e conjuntural das medidas, o défice orçamental é o mais baixo de sempre, a austeridade evidentemente não desapareceu, as exportações, de facto, não têm a mesma pujança, mas temos hoje o Ministro das Finanças líder do Eurogrupo, a mais ortodoxa instituição, no que à política orçamental se refere, que existe, rendida ao desempenho de Mário Centeno.

Ora, esta prestação da política orçamental teve um condão. Com a anestesia dos Partidos da extrema-esquerda que suportam o actual Governo, os Partidos da Oposição ficaram sem discurso e programa. É duro dizer, mas é a realidade. O que diferencia hoje o PSD do PS? O que faz uma pessoa votar num ou noutro Partido? Que discurso económico pode apresentar o PSD como alternativa? Mais crescimento e mais empenho do que este Governo? Pois. Mais, mas não muito diferente.

Esta foi a grande vitória de António Costa. Um dos políticos mais hábeis e tacticistas do nosso país.

Como se combate esta forma de fazer política? Bem, para isso seria preciso rasgo, estratégia e uma visão de estadista. E esse é hoje o impasse na política portuguesa. Nestas circunstâncias nos debates que existem falta o cheiro a mudança, até no xadrez partidário. É este impasse que precisa de ser encarado sem rodeios, sob pena de termos uma repetição do pântano, que, olhando para fora, tem sido o terreno fértil para os movimentosditos populistas e anti-sistema que chegaram ao poder em países como Itália. Espero que o país não chegue a 2019 com uma situação de faz de conta, numa espécie de jogo do empata a fingir divergências, que não passam de trivialidades comparadas com o nó górdio, que os conflitos comerciais mundiais poderão trazer. Um país saudável precisa sempre de dois modelos distintos para escolher, precisa de alternativas consistentes e diferenciáveis. Sim, um plano B sempre ao dispor é uma das forças e seguranças da Democracia.

Esperam-nos tempos perigosamente interessantes.