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Expresso

Exportações e produtividade: pistas para o futuro?

A economia portuguesa continua, infelizmente, sensível aos humores e andamento da economia europeia e mundial, onde a crispação comercial entre Estados Unidos e China não promete bons frutos. Portugal, apesar do actual sucesso na contenção orçamental, bem sabemos em que termos e com que garrote, deve ter em atenção os resultados das suas exportações. E os resultados, sobretudo se se mantiver a tendência dos últimos números, são preocupantes. Se olharmos para as exportações de bens registou-se uma queda de 5,7% em Março, face ao mesmo período de 2017. Calma. Não precisamos de ficar já deprimidos. Mas temos, isso sim, de ficar bem atentos. Sim, é nas exportações que está a melhoria desta tão frágil e dependente economia. Podemos ter hoje discursos sorridentes, Ronaldos no Eurogrupo, Eurovisão em Lisboa, e muita propaganda, mas não nos podemos esquecer do que sofremos. Quem esquece os erros do passado arrisca-se a repeti-los.

Depois, olhamos para a produtividade. Raio de palavra sempre a colorir e a dar floreados nos discursos e nos artigos, como este, mas que não deixa de ser apenas um sonho. Um país produtivo. Sim, também sonho com um país assim. Mas e medidas? Onde estão as soluções? E os incentivos onde estão escritos? E pensar que não temos mais produtividade, por falta de organização, por burocracias e por falta de vontade. Sim, também é por uma certa falta de vontade. Nós, portugueses, até somos produtivos. Normalmente lá fora, com outros modelos de gestão e de organização do trabalho e das empresas. Muitos são os casos de portugueses por essa diáspora fora a vingar. A dar cartas. A responder a tempo e horas, com qualidade, ao trabalho solicitado. Então o problema é o clima de cá. Não o meteorológico, mas o clima de trabalho. Um ecossistema pouco propício ao sucesso.

Falta uma forte cultura de produtividade. Mas pela positiva. De incentivo. De verdadeiro apelo a trabalhar mais e melhor, bem remunerado, mas com menos tempo perdido na fábrica, no escritório ou no famigerado open space. Não quero mais horas de trabalho, quero mais trabalho em menos horas, é nisso que se traduz a produtividade. E a produtividade ligará sempre com mais exportações, com mais crescimento, com melhores condições de trabalho e com uma melhor economia para todos.

É extraordinário que num país em que formamos grupos, comités, Livros Brancos e unidades de missão para tudo, não se faça uma à séria pela questão da produtividade. E os alertas quer do Banco de Portugal, quer da Comissão Europeia, quer do FMI e da OCDE estão aí. Eu não estou a atacar um qualquer Governo. Estou a atacar um problema crónico da economia nacional. E enfrentar os problemas nacionais deveria ser uma missão de um Governo responsável. Sim, governar também é tomar medidas difíceis e procurar melhorar o país no seu conjunto, sem deixar ninguém para trás.

E sim, também não fujo ao tema. Precisamos com urgência de uma economia mais robusta. Não apenas para o nosso futuro, mas sobretudo para fazer face aos vários encargos que teremos de enfrentar. Sim, entre eles as tristemente célebres Parcerias Público-Privadas (PPP). A ruína que foi para o país a cultura das PPPs, que ficou bem demonstrada no relatório produzido pela Comissão Parlamentar de Inquérito à Contratualização, Renegociação e Gestão de todas as Parcerias Público-Privadas do Sector Rodoviário e Ferroviário, cujo relator foi o deputado do PSD Sérgio Azevedo e que deu origem a um livro bem interessante. No seu início o conceito de PPP parecia interessante ao juntar financiamento estatal com uma mais eficiente gestão empresarial privada que assume risco operacional. Todavia, em Portugal, fomos mais longe e tornámos os contratos das PPP em acordos de sentido único. O Estado paga, o Privado ganha, mas com risco mínimo, pois este está, com blindagem contratual, colocado do lado do Estado, ou seja, de todos nós contribuintes. E no final do dia os facilitadores estão todos felizes. O Estado é tão grande e abrangente que dá para tudo. Pena é que os que fizeram a festa não a pagaram. Quem paga a festa não entrou na distribuição das prendas, só ficou com a choruda factura a arder na carteira.

Por tudo isto lamento dizer: o Estado não dá para tudo. E muita calma nesse apressado e inadiável projecto estruturante de um novo aeroporto para Lisboa. Muita calma. Seria bom que se tratassem os números com ponderação e exactidão, sob pena de haver alguém, os incautos contribuintes, que, mais uma vez, paguem os exageros das previsões de tráfego. Quem pode garantir que os brutais fluxos turísticos, vividos nos últimos anos, são perenes e sustentáveis? Será que o turismo de massas é o modelo a seguir? Ah, convém nunca esquecer que negociações apressadas e mal estudadas, sobretudo com empresas monopolistas, não têm sido frutíferas, basta olhar para a conta da luz...

Tratem lá de pôr o país com melhores índices de produtividade, que depois logo trataremos das infraestruturas de que realmente precisamos. Mais obras públicas para juntar à manada de elefantes brancos, não obrigado.