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Expresso

Acabou a austeridade?

A semana que passou, retirando o tema Sporting, sempre merecedor de páginas de jornais e horas de televisão, demonstrou bem de que massa é feita esta inusitada solução parlamentar de sustentação do actual Governo.

O Bloco de Esquerda “ameaçou” o Governo. Bem, ameaçar não será bem a palavra mais adequada. Chantagem pode ser o qualificativo mais adequado. E o Governo? Assobiou para o lado. Apesar disso, foram empregues algumas farpas de grande elevação, desde o líder da bancada parlamentar do PS, Carlos César, chamando “entusiasmo juvenil” ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista Português (PCP), demonstrando bem a sobranceria e displicência de uma certa elite política para com os novos actores deste tempo novo, até à fórmula “habituem-se” do Primeiro-Ministro, António Costa, tudo foi surreal.

O que está verdadeiramente em causa? O único tema que “mata” Governos. O famoso Plano de Estabilidade (PE), antes chamado de Estabilidade e Crescimento (PEC). Já tinha sido assim com o então Primeiro-Ministro José Sócrates, aquando do PEC IV, é agora com António Costa. Com uma diferença muito significativa. O actual Primeiro-Ministro António Costa, habilidoso negociador, ninguém o nega, só ocupa o cargo devido ao “entusiasmo juvenil”, perdão, ao apoio, aparentemente incondicional, excluindo eventuais “arrufos”, do Bloco de Esquerda e do PCP. Parece ser incondicional, pois votam favoravelmente, apesar de algumas críticas e insinuação de linhas vermelhas, orçamento atrás de orçamento, ficando, apesar das múltiplas proclamações em contrário, colados, partilhando assim a paternidade do défice mais baixo da história da nossa ainda jovem democracia.

É um feito e tanto do nosso “Ronaldo das Finanças”. Todavia, como se chega a este “magnífico” défice? Este é o ponto. À custa de milhares de facturas de investimento público e de contas dos serviços públicos na gaveta, processo também conhecido por cativações. No passado o PS tinha posto o socialismo na gaveta, agora Centeno coloca lá os serviços públicos. Os números são claros. Os dados da execução orçamental divulgados pela Direcção-Geral do Orçamento demonstram bem que os resultados são atingidos pelo aumento de dívidas a fornecedores. Clarinho.

E podíamos ir rúbrica a rúbrica, Ministério a Ministério, serviço a serviço. E sim, terminaríamos na inexistente ala pediátrica Hospital de São João no Porto. É tão, mas tão evidente, que é a demonstração acabada de que a austeridade verdadeiramente não desapareceu. Está aí. Sente-se. Não era apenas e só culpa do supervilão da esquerda Pedro Passos Coelho.

Estamos hoje melhor? Estamos. Batemos no fundo e só poderíamos, de facto, melhorar, depois de um duro processo de ajustamento supervisionado pela troika. Mas não é possível contar com o Ministro Centeno a dizer o que não existe. Crescemos? Bem, os números dizem que sim, mas também dizem que 19 economias da Europa cresceram mais. Portanto, até no contexto europeu há melhores resultados, pois há vida além do défice, que beneficia e muito se o crescimento económico for pujante.

E o ponto-chave é o contexto europeu. E vivemos assim, como pequena economia aberta, ao sabor dos humores da economia europeia e mundial, sem conseguir ter o próprio destino nas mãos. Com um Governo a reboque das gavetas fundas do Ministro Centeno. Afinal “somos todos Centeno”. Com um certo desplante ao colocar os seus parceiros de esquerda à margem, como espécie de castigo para “meninos mal comportados” voltados para a parede pelo Mestre-escola. E era isto uma solução estável, duradoura e credível? Poupem-nos.

No meio deste anticiclone político, valha-nos o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. O único actor político, que se comporta como garante do regular funcionamento das instituições, em que os portugueses confiam e que tem uma visão de futuro para o país.