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Expresso

Estamos em guerra?

Estamos, no plano internacional, a viver um conflito comercial e simultaneamente uma crise diplomática, que se poderão ainda agravar. O mundo parece estar a entrar dentro de uma conjuntura que, no passado não muito longínquo, já deu guerra. O catalisador belicoso poderá ter sido a eleição de Donald Trump. Um decisor político errático, que quer mudar as regras do sistema internacional do pós-guerra, chegou ao cargo mais importante do mundo. Basta ler o livro “Fire and Fury: Inside the Trump White House”, de Michael Wolf. Está lá tudo. Demissões em catadupa. Tomadas de posições contrárias ao mais sensato, sobre os diversos temas, abundam. Um elevado grau de instabilidade, misturado com um ego e impreparação brutais.

Um homem que não serve nem para administrador do condomínio, sobretudo do condomínio mundial, alguém sem noção do bem comum, somente do interesse próprio, tem hoje o poder de mandar no país mais poderoso do mundo. E, como tal, lá declarou uma nova política comercial proteccionista para os Estados Unidos da América (EUA). America First, gritou Trump, em plena campanha eleitoral, e conquistou muitos que estão desiludidos com os políticos “normais”, cinzentos e sensaborões. E isso ninguém lhe tira. No entanto, a guerra comercial que agora declara à China, tem tudo de perigoso para o futuro da nossa economia, pois as ondas de choque, das perturbações no comércio internacional, sentir-se-ão inexoravelmente numa pequena economia aberta como a nossa. A Administração Trump quer cobrar taxas punitivas sobre as importações chinesas. Os americanos consomem mais do que produzem. É uma realidade que se consubstancia no défice da balança comercial. Como tal, a China, um país de extremos, com um notório desrespeito pelos Direitos Humanos, é uma formiga de trabalho e consegue levar os seus produtos até à maior potência mundial com preços muito competitivos. Trump quis dar um murro na mesa, com os olhos postos no seu eleitorado,que terá de manter galvanizado até às próximas Midterm Elections, em Novembro deste ano.

Apesar deste aparente fecho de fronteiras à China, os EUA terão forçosamente de se abrir mais a outras economias, pois a produção nacional americana não compensará com a rapidez e custo desejados o que antes era comprado à China, tanto mais que, pensemos na Apple, as cadeias de produção transnacionais não são, num contexto deprodutos de tecnologia de ponta produzidos em just in time, instantaneamente ajustáveis. A manutenção do actual nível da procura americana irá obrigar a outras aberturas,depois deste anunciado fecho. Não há, nem sequer é desejável, para os próprios, um America First. Já dizia, há vários séculos atrás, um dos economistas clássicos, David Ricardo (judeu de raízes portuguesas), sobre o comércio internacional, que as vantagens comparativas de cada país eram mutuamente benéficas, pois cada um produz aquilo em que é mais eficiente assegurando aos consumidores preços mais baixos, relativamente ao preço em economia fechada.

No meio deste voluntarismo comercial, temos uma relação cada vez mais tensa, no seguimento do caso Skripal, com a Rússia. Entre desconfianças de possíveis ingerências eleitorais russas em democracias ocidentais, temos o fantasma da Guerra Fria bem presente. Um dos problemas para o mundo actual são os protagonistas. Putin é bem mais experiente e perspicaz do que Trump. E esta diferença sente-se e prejudica o mundo, pois Putin nunca escondeu o objectivo de trazer, a qualquer preço, a Rússia de volta ao patamar de potência incontornável no xadrez político mundial, pondo em causa o equilíbrio do sistema internacional tal como o conhecemos.

Quando deveríamos estar a fazer um esforço internacional para regular os excessos da globalização. Quando deveríamos estar a aprofundar as relações internacionais assentes no multilateralismo, a incluir e a criar boas formas de relacionamento, estamos a abrir conflitos estéreis e desfasados. Claro que, no meio desta situação geopolítica internacional instável, a Europa pouco risca. A Europa, que tem uma forma de organização interestadual diferente de qualquer outra, em que vários Estados soberanos delegam parte dos seus poderes soberanos, numa organização supranacional, não se afirma, ou não estivéssemos a falar de um actor político desprovido de poder duro, e diz que se deveria replicar a União Europeia, construindo uma União Mundial. E não faria sentido, antes de cairmos na utopia, aprofundarmos as regras de boa convivência internacional, bem como definirmos e reforçarmos os entendimentos mínimos entre todos os Estados? Até numa óptica de diminuir a pobreza mundial e criar uma economia global mais inclusiva?

Quem conseguir olhar de frente para o longo prazo, sem pensar somente nos interesses próprios a curto prazo, daria um forte contributo a este planeta. Da economia, às alterações climáticas. Da livre circulação de pessoas, bens e serviços, ao respeito pelos Direitos Humanos. Faz falta uma Governança Mundial, ademais quando a ONU é posta de lado, por aqueles que querem regressar ao jogo bilateral das grandes potências.