Siga-nos

Perfil

Expresso

Voltar ao marco dos Correios?

Os CTT são nossos. Por história, por proximidade, pela pertença à memória colectiva. A carta que chega, a carta que vai. Cartas de toda a espécie. Desde amor até aos negócios, passando pelas contas lá de casa, quem não as tem? Pois. Já foi tempo. A economia digital é uma realidade. O correio electrónico e os outros meios de comunicação electrónicos são uma função banal na nossa vida, não raras vezes, um mero ícone num qualquer smartphone. Já nem dos computadores precisamos. As mensagens e as conversas processam-se num vai e vem com a rapidez de sabermos até se o destinatário recebeu e leu. Tudo controlado, tudo expedito e digital.

Ora, o avanço brutal nas comunicações, seja a nível pessoal, seja a nível institucional, e neste nível coloco a nossa relação com o Estado e com as empresas, faz do serviço postal dos CTT, mormente no que à mera correspondência de envelope diz respeito, um serviço em risco de extinção. São os desafios da tecnologia e da modernidade. Sinal dos tempos.

Basta olharmos para os números. Nos últimos cinco anos, a actividade dos CTT, ou seja, o correio tradicional, teve uma quebra entre 30 a 35%, sem que a própria estrutura sofresse a mudança correspondente. Não há milagres. No meio desta situação existe uma privatização que rendeu 909 milhões ao Estado. Podemos ser contra ou a favor. Mas aconteceu. Os accionistas privados pagaram para ficar com a empresa. Com a empresa, com o património, com o negócio, com os trabalhadores e com as respectivas reservas, mas sem subsídios à prestação do Serviço Postal Universal (SPU), ao contrário do que acontece, em vários países europeus, por exemplo na Alemanha com o Deutsche Post. Os negócios são mesmo assim.

Agora, ouvimos falar, em tom de escandaloso abuso, da questão da distribuição dos dividendos, ser feita além do valor dos lucros do exercício. Não se trata de algo inaudito ou de um fenómeno paranormal. Mas, fica nisso mesmo. Falatório, muitas vezes sem tentar perceber ou ler sobre aquilo que se comenta. Os CTT são uma empresa privada. Com accionistas privados e uma Administração escolhida e que fiduciariamente deve respeitar os melhores interesses dos seus accionistas, é esta a base do sistema capitalista onde vivemos, goste-se ou não.

É notório que o ajustamento da estrutura dos CTT é um quando e não um se, os dados que enunciei são claros e é com eles que qualquer investidor racional ou administrador trabalha e não com base em utopias. O mundo mudou. Como muda a cada dia. O que antes ia em carta vai facilmente em e-mail. Sim, os CTT devem apostar fortemente na diversificação das suas fontes de receita. A dependência em perto de 80% vindos da correspondência convencional, obriga a um forte esforço de inovação e ao alargar de horizontes. Sendo que, segundo vamos lendo, a aposta passará por serem um forte operador de logística, ou seja encomendas, fruto do crescente desenvolvimento do comércio eléctrónico ou e-commerce. É um caminho. Mesmo no correio tradicional há espaço para inovações tão singelas como a implementada pelos Posten Norden (Suécia e Dinamarca) da emissão de selo por SMS, ou seja, o utilizador envia uma mensagem paga recebendo de volta um código que, escrito na carta ou encomenda, com peso até 2 Kg, vale como selo.

Os CTT merecem tempo para implementar as suas opções estratégicas. Claro que a ANACOM terá uma palavra importante a dizer, ou não estivéssemos a falar da empresa concessionária do SPU. Mas uma economia saudável deve ser capaz de respeitar a iniciativa privada e a sua gestão. Passamos o tempo a pedir que o Estado não se meta. Mas qualquer questão polémica lá vem o Estado à liça.

Não devemos, no entanto, cair no erro de assumir que os CTT operam um monopólio sem concorrência, como por exemplo o das redes de transporte e distribuição de electricidade ou como nos aeroportos. Desde o final dos anos 90 que, por iniciativa da União Europeia, através de três Directivas comunitárias sucessivas, a última de 2008, se liberalizaram os serviços postais. Devemos também perceber que naquele que se prevê ser o segmento mais dinâmico, o e-commerce, existem vários e fortes concorrentes (alguns deles empresas logísticas globais), quem recebe encomendas da Amazon, sabe bem de que empresas falo.

O tema do interior é, também, muito associado às estações dos CTT. A história de que se o posto dos CTT sair de determinado lugar, será o fim de uma freguesia ou de uma vila. Volto atrás. Não cabe aos CTT povoarem o país e fazerem o trabalho do Estado, estão somente obrigados pelas regras da concessão do SPU, para os mais esquecidos lembro que, num Estado de Direito,valem as leis democraticamente votadas e aprovadas. Todavia, não compete aos privados descentralizarem isso pertence ao domínio das políticas públicas. E este ponto é fundamental ser apreendido por certos decisores políticos. Neste âmbito faço nota que num dos faróis da social-democracia escandinava, a Suécia, os CTT locais implementaram várias medidas de racionalização do negócio incluindo uma redução acentuada do número de trabalhadores, por forma a se adaptarem às novas realidades do negócio postal, bem como a terem flexibilidade de acção, que as mudanças tecnológicas impõem e a que as grandes estruturas empresarias nem sempre sobrevivem, pensemos na Kodak.

Espero que o caminho para a frente seja o de total satisfação dos diferentes stakeholders. Desde os trabalhadores, que merecem ser remunerados condignamente, passando pelos fornecedores, e os CTT têm um forte impacto na nossa economia, bem como os accionistas e respectiva Administração.

Menos chicana política, haja mais bom senso e estudo, se faz favor.