Siga-nos

Perfil

Expresso

Revisitar o Compromisso Portugal

Foi em Fevereiro de 2004. Passaram, entretanto, 14 anos. Tratou-se de um movimento marcante na sociedade civil, vindo do mundo empresarial. Falo do Compromisso Portugal. Esse mesmo. O bicho papão dos empresários poderosos.

E o que queria o “Compromisso Portugal”? O objectivo era propor um novo modelo económico e de desenvolvimento para o país.

Foram entre 30 e 50 medidas. Desde alterações na Constituição, passando pela criação de um “Tableau de Bord” para avaliar as medidas e a actuação dos Governos.

Foram figuras de reconhecida qualidade, vindos sobretudo das empresas, como António Carrapatoso, Alexandre Relvas, Filipe de Botton, António Mexia ou Diogo Vaz Guedes. Uma geração que procurou dar o seu contributo para o país.

Claro que os ataques, as conspirações e as segundas intenções apostas a este grupo surgiram logo. Faz parte. Mas ficou uma tentativa de mudança do país e da economia nacional. E este ponto merece ser revisitado. Ou melhor, merece ser actualizado.

14 anos depois o país está melhor? Bem, depois de vários apertos ao cinto, este movimento veio depois do discurso o Estado está de tanga, depois de um período de prosperidade, a que se seguiu o resgate e a austeridade, um período de duro ajustamento sobre a égide do auxílio externo para pagar contas, se calhar começa a ser tempo de a sociedade civil portuguesa dizer o que pensa e o que quer para o seu país.

É que os problemas identificados lá atrás, como a reforma da Administração Pública, ou o futuro da Segurança Social ainda existem. Não houve nenhum passe de magia que os fizesse desaparecer.

Os desafios do mundo, aquelas questões que não debatemos, as que ficam fora da agenda mediática, qual náufragos na espuma dos dias, precisavam desta alavanca da sociedade civil. Sim, penso nas mudanças tecnológicas, ambientais e sociais, nos avanços brutais que acontecem todos os dias em qualquer parte do mundo, mas não conseguem ter o acompanhamento devido não só das instituições públicas, mas também da sociedade civil. Falo, por exemplo, das leis que hoje temos. Será que o trabalho como o conhecemos, até aqui, faz sentido continuar a ser regulado da forma e com base na relação patrão-empregado que conhecemos do século XX? Será que um país tem futuro quando percebemos que os vencimentos são cada vez mais baixos, tendo a certeza do retrocesso geracional que estamos a criar, em que pela primeira vez existe uma inversão entre os salários de pais e filhos? Não é inocente a notícia desta semana. Ninguém estranhou que surgisse a notícia de que a maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa, devido aos empregos precários e a um mercado de habitação com preços muito elevados, segundo um relatório da Cáritas Europa.

Sim, é para o futuro que precisamos de respostas, não precisamos de reviver o passado, mas sim de aprender com ele para melhorar a vida de cada um de nós. E sim, convocar empresários, académicos, gestores, professores, médicos, construtores, gente da cultura, advogados, jovens, gente que todos os dias lida com a realidade económica do país é um compromisso urgente para Portugal. Já que estamos numa fase de construção de consensos, apelo ao consenso da sociedade civil, para discutir sem preconceitos e sem unanimismos o que queremos para o nosso amanhã. Não são os Partidos que fazem avançar o país. É a sociedade civil, todos os que pertencem e fazem a polis.