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Expresso

A Google, a Amazon e os Salários

Recebemos, na semana passada, o anúncio de uma boa notícia. A vinda do hub digital da Google, com mais ou menos polémica quanto à sua natureza (centro de competências ou call-centre?), é sempre uma boa notícia. O investimento nacional ou estrangeiro é o caminho para o crescimento económico de que necessitamos, com elevada urgência. Podem os parceiros deste Governo ficar mais ou menos arrepiados, mas sem investimento privado feito por empresas nacionais ou transnacionais, não existe criação de rendimento, logo não há redistribuição que resista.

A isto soma-se já a possibilidade de termos a Amazon no Porto, bem como a Nestlé, desta feita para Cascais.

Que fique bem claro para todos, a localização destas empresas não deve ser tema de discussão política. São boas notícias para o país, nomeadamente para os Municípios que as acolhem, e não comecemos a debater a questão do Interior, impondo sobre estas multinacionais qualquer responsabilidade, mormente num Estado em que as políticas públicas não dão quaisquer sinais robustos e capazes de influenciar as decisões das empresas aliciando-as a ir para dentro do território nacional. Esse é outro tema. Não façamos erros de análise, por favor.

O facto destas empresas virem para o nosso país é um factor de incentivo. Claro. Concordo com a visão descrita pelo Professor João César das Neves, o olhar dosinvestidores estrangeiros para Portugal, prende-se com a ideia de que se está a gerar aqui, neste canto da Europa, “a Califórnia da Europa”. Sim, a localização ajuda, o boom turístico também, bem como o clima e a segurança. Agora, a ideia de que a atracção de investimento se faz com salários baixos, com pessoas qualificados “baratas”, não pode ser o móbil do investimento, nem a estratégia de atracção de investimento a implementar pelo nosso país. Não é esse o país que queremos projectar, nem essa a via para odesenvolver.

A notícia da pretérita semana de que os salários tinham estagnado, desde que este Governo tomou posse, deve levar-nos a reflectir sobre o caminho percorrido. Falo de dados objectivos, as remunerações declaradas pouco cresceram desde 2015 e, excluindo o aumento do salário mínimo, a variação é mesmo negativa.

Ora, com a entrada de empresas desta envergadura em Portugal, com o aumento da necessidade de captação de mão-de-obra qualificada, sobretudo nas engenharias e programação informáticas, o país não pode fingir que não tem um problema.

Os salários são baixos e é premente o estímulo à sua subida. Pois a breve prazo, se continuarmos a contar com salários baixos, não conseguiremos reter o talento que produzimos nas nossas universidades. Não obstante, convém não olvidar que os aumentos salariais devemespelhar os aumentos de produtividade, sob pena de serem efémeros, pelos efeitos na inflação que, em termos reais, os reduz ou pela perda de competitividade interncional, que nos afasta dos mercados internacionais apetecíveis e assim condena os postos de trabalho à extinção, por falta de vendas que os sustentem.

Já o disse, mas parece-me não ser demais repetir. Porque não mexermos na Taxa Social Única? Não falo em redistribuição dos trabalhadores para os empregadores. Falo numa redução para as duas partes. Hoje, a folha salarial é tão complexa que todos olham e pensam que trabalham não para si, mas antes para o Estado português e seus credores. O que os impostos levam dos nossos vencimentos não se coaduna com a qualidade dosserviços que o Estado nos deveria prestar. Se dispuséssemos de um Estado que nos ajudasse, então poderíamos falar de justiça, mas, à data de hoje, o peso do Estado nos salários é excessivo, não sabendo nós o quão perto estaremos do incomportável. E sim, para quem quer contratar também. O que cada entidade empregadora paga por trabalhador, é um peso significativo na hora de tomar a decisão de contratar. Porque não mexermos na TSU, descendo 1,5% para trabalhadores e também aos empregadores? Isto, claro, existindo folga orçamental. Era um estímulo à poupança, pelo aumento do salário líquido, bem como um alívio para várias empresas. Inclusive para aquelas empresas que iremos acolher no nosso território. Fica a sugestão.

O desafio, para o futuro, é criar um ecossistema económico e social propício à iniciativa privada e um clima de confiança e realização para as pessoas. Vamos lá crescer.