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Expresso

Je suis Pedrógão Grande

Eu queria escrever sobre a Agência Europeia do Medicamento. Queria mesmo. Gostava de estar a falar da Banca, de défices e dívidas. Das coisas do dia-a-dia. Queria falar do Ronaldo, do fisco e dos golos. Mas, apaguei o texto desta semana. Não dá para falar de outro tema. Este fim-de-semana foi muito duro.

Sabemos, infelizmente, que chega o calor, chegam os incêndios. É assim ano após ano. Por mais promessas, por mais tragédias. O ano passado vivemos em aflição com o incêndio na ilha da Madeira. Mas este ano foi arrasador. Não imagino o que é ficar sem a própria casa, mas ficar sem a própria vida, a fugir de um fogo que consome tudo o que encontra é uma morte trágica. É um inferno.

Por isso a minha pequena homenagem a quem viveu este drama. Confesso que passei o tempo agarrado à televisão. O meu amigo David é de Pedrógão, a terra mais ao centro do País como ele diz. Fiquei colado às notícias e em contacto com ele. Graças a Deus está bem. Mas foram muitas as pessoas que desapareceram. Por respeito a estas vidas desaparecidas, bem como aos extraordinários bombeiros que dão a vida e arriscam por nós, não é tempo de ataques e acusações. Não é. A culpa não pode morrer solteira, mas neste drama, com as frentes activas não é tempo de ajuste de contas. Quero, também por isso, destacar o papel do Presidente da República. Podem dizer o que quiserem, mas não há político igual. Não há. Não fica no conforto do lar, a fazer o mero acompanhamento. Ele sai e vai para o terreno. Larga tudo e segue para onde estão as pessoas, para onde está o problema. Aquele abraço que dá ao Secretário de Estado da Administração Interna (extraordinária a postura de Jorge Gomes, de uma serenidade e humanismo comovente) é de uma força incrível. Representa o abraço de um país. Um país solidário. Um país que trocava tudo, vitórias no futebol ou Eurovisão, pelas vidas destas pessoas que partiram. Raios partam este fogo maldito.

Mas que não fiquemos só a lamentar. Ouvi debates, teorias e muitos estudos. Todos sabemos que a prevenção, que o investimento em meios de combate é essencial. É crucial. Mas também é a necessidade de envolver todos para cuidar do território. A limpeza das matas e florestas. E para esse trabalho ser eficaz, os proprietários devem ser comprometidos com esse trabalho.

Andamos a brincar às localizações de futuras sedes, mas o debate do interior e de cuidar do território é sempre um debate adiado. Adiado ou então surge logo a criação de Unidades de Missão e de Estudo. Se a memória não me falha, também existe uma Unidade de Missão para o interior. Resultados? Pois. Já chega dessa conversa. Perdemos pessoas. É dramático. Mas também olhemos para as questões climáticas. Tudo está em causa.

Agora cuidemos dos nossos. Ajudemos da forma como for possível a cada um. Mantimentos e doações são formas de dar um pequeno conforto a quem tudo perdeu. Somos um país pequeno, mas devemos sempre ser um país solidário. Foram os nossos que partiram. Não foi um prédio em Londres ou uma bomba no Iraque. Foi em Pedrógão, ali ao lado.