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Expresso

Alegrias não pagam dívidas

O país está melhor. Afirmação correcta que assino por baixo. Sim, Portugal está melhor e o cartaz espalhado pelo País, da autoria do Partido Socialista, está certo.

Todavia, nesta melhoria do país, o histórico conta, por isso não acredito em milagres repentinos, sobretudo no campo económico e financeiro.

Vivemos hoje uma situação orçamental mais flexível graças ao défice abaixo dos 3%. Saímos, depois de uma travessia marcada por sacrifícios vários do povo português, do procedimento por défice excessivo. Finalmente, a política orçamental será nacionalizada, ou seja, menos dependente do crivo da Comissão Europeia e do Eurogrupo. Como chegámos aqui? Pois.

É que o défice desceu de 11% para 3%. E este Governo desceu de 3% para 2,1%. Aqui está o cerne da questão. O actual Governo manteve, em vários domínios (não falo somente das cativações), o rumo do fustigado Governo PSD-CDS. A reposição de salários e pensões, medida directa e sentida no bolso de todos, foi acompanhada por forte retracção no investimento público e pelas sobejamente conhecidas cativações de despesa inseridas no Orçamento do Estado. Bem elevadas por sinal.

Foi pouco o eco dado à Presidente da CMVM que, na sua audição no Parlamento, referiu o facto de, perante as cativações orçamentais impostas pelo Governo, poder, no limite, ficar sem dinheiro para salários, a partir de Dezembro, caso não adopte outras medidas, necessárias para fugir ao espartilho cerzido no Orçamento do Estado pelo Ministro Centeno.

Tal como continua a passar despercebido que a nossa dívida pública continua em rampa francamente ascendente e sem dar mostras de correcção significativa.

Assim não deixa de ser curioso ouvir o Primeiro-Ministro António Costa falar em manhas de empresas sobre reguladores e em contornos intrincados da lei e perceber que não se passa nada.

Isto é arte. A arte da comunicação política. É indesmentível que temos hoje um Primeiro-Ministro com grandes dotes de negociador e que consegue passar uma imagem de tranquilidade e… até alegria. Aliás, o próprio, naquilo que considero um lapso infeliz, propício a leituras menos benevolentes, comparou-se a Pedro Passos Coelho em matéria de… alegria.

Eu gosto muito de pessoas alegres e optmistas. Gosto mesmo. Todavia gosto mais delas no contexto de uma boa conversa ou para ir beber um copo. Já no que ao destino do meu país diz respeito gosto de pessoas competentes, sérias e realistas, com os pés assentes na terra, vacas voadoras à parte. A ideia de que está tudo bem, de que não vale a pena falar dos problemas, não é sinal de uma democracia madura, mas sim de uma sociedade adormecida e imatura, como se as cidadãs e os cidadãos da nossa República, sobretudo depois de terem passado pelo ajustamento dos anos da troika, não fossem capazes de lidar com a verdade sobre a realidade do nosso país. E quem adormece e não quer saber, arrisca-se, um belo dia, a acordar com os problemas aos pés da cama, onde placidamente dormia sonhando sonhos cor-de-rosa.

Não, não estou a anunciar o Diabo. Tanto mais que em Deus confio e sei do, como diz a sabedoria popular, “Fia-te na Virgem e não corras” … Espero que este caminho de bons resultados continue. Agora, não quero é viver iludido ou alheado. Quero o cenário completo. Quero os dados em cima da mesa, sem subterfúgios ou adoçantes. Quero clareza e seriedade nos argumentos e não sorrisos bonitos e largos ou alegrias fantasiosas.

Este Governo atípico, tem duas situações excepcionais na história da democracia portuguesa. De um lado uma paz social como nunca antes vimos. Aliás, as greves convocadas são tão ilusórias que mais parecem prova de vida sindical. Apenas para consumo interno.

Por outro lado, existindo alguma crise na coligação de esquerda, duvido que existam eleições antecipadas. Ainda existe a figura de entrada no Governo do Bloco de Esquerda e do PCP. E esta situação pode muito bem acontecer. Penso que António Costa, pragmático como é, retirou a lição do erro político de Theresa May. Não vale a pena estar a olhar para sondagens e provocar eleições com os números aparentemente a favor.

O povo é quem mais ordena e percebe bem as jogadas de táctica política.

Tal como percebe que não basta alegria para responder aos desafios actuais. Até lá não nos tomem por néscios. Portugal precisa de persistir no caminho de rigor orçamental. E esse rigor não permite derivas eleitoralistas, nem cortes cegos, apenas para cumprir défices, Saúde à cabeça. E é bom não esquecer que o Presidente Marcelo também conta para o Totobola. E muito.