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Expresso

Comprar dias de férias

Estamos em Junho, começa o bom tempo, alterações climáticas planetárias à parte, as pessoas começam a pensar nas férias, na chegada dos festivais, do sol e da praia. E, por falar em férias, venho falar de uma solução que começa a ganhar força em certas instituições. Falo na opção de "comprar dias de férias".

No banco Santander Totta esta opção é já uma realidade na política de recursos humanos implementada pela instituição, parte do colosso Santander. Começa também a ser estudado no Novo Banco e pode ser uma solução interessante sobre qual as outras instituições públicas, privadas ou do terceiro sector deveriam ponderar.

O modelo é relativamente simples. Um colaborador tem os dias certos, estipulados por lei, para gozar as férias. Mas pode optar por tirar mais alguns dias, para além dos garantidos, no máximo entre 5 e 10 dias, não auferindo remuneração por esses dias. Sabemos que a vida tem determinados desafios e imprevistos que, dada a sua natureza errática, aparecem de repente, estando muitas vezes as pessoas inibidas de pedir mais dias, tão necessários para debelar certas situações delicadas.

Vamos ser sinceros. O mercado laboral e a política de recursos humanos têm de evoluir para o século XXI e não ficar presos no século XX, num modelo industrial em que toca a sirene e entram os turnos ao trabalho, com todos os operários a picar o seu ponto no relógio à hora certa, sob pena de repreensão do encarregado de secção. O objectivo de uma moderna e contemporânea gestão de recursos humanos deve ser a motivação das pessoas, condição indispensável para permitir uma maior produtividade.

Longe vão os tempos dos patrões e chefes maus, que procuram explorar as pessoas exigindo sem limites, sem olhar a meios para atingir os seus fins (não necessariamente iguais aos objectivos da organização), sem sequer ponderarem nos efeitos das suas decisões nas vidas pessoais dos seus colaboradores. Lamentavelmente ainda existem casos destes, as estatísticas do assédio moral, no contexto laboral, estão aí para o provar. Desconfio cada vez mais dos alegados workaholics. Aqueles que são contra as férias, contra as pausas e parecem alimentar-se da desmotivação e dificuldades dos demais. Não há produtividade sem motivação. Não falo apenas de recompensa monetária, mas de respeito e consideração pela entidade patronal, em que o patrão, ochefe, o director, o administrador ou o presidente devem ser líderes e não meros amanuenses, cuja única função é copiar acriticamente as directizes emanadas dos superiores hierárquicos.

Como poderemos criar organizações inteligentes, com forte aprendizagem e capacidade de adaptação ao mundo global, se não valorizamos os contributos de todos os que delas fazem parte?

Os dias de hoje são de flexibilidade e adaptabilidade, o que implica mais possibilidades de teletrabalho e de maior coadunação entre horário laboral e vida pessoal.

Imaginemos um caso de urgência. Entre questões de saúde, necessidades de viagem inesperadas ou simplesmente cansaço. Que mal tem uma pessoa meter alguns dias, garantindo o trabalho e assegurando o cumprimento das tarefas vitais? Nenhum. Todavia estas medidas que começam a ganhar forma, precisam de ser acompanhadas com a aceitação da chefia. Não vale a pena a hipocrisia de medidas para motivar colaboradores e depois quem usufrui destas medidas passar a ser olhado de lado ou ostracizado como se fosse o alienígena da equipa. Isso não é o modo de actuação mais correcto.

Esta medida não é um incentivo ao ócio. Pelo contrário, é uma forma de dizer às pessoas que têm liberdade de escolha. Que podem viver a sua vida e ter uma ferramenta à sua disposição para fazer face a situações imprevistas, sem sofrer penalizações acrescidas na sua componente laboral.

As organizações, com os avanços tecnológicos que hoje existem, devem ter bem presente que a maior matéria-prima que dispõem são as pessoas e as suas capacidades.

Contudo faço a advertência, estas medidas e incentivos devem ser acompanhadas com muita responsabilidade e sentido do dever do lado dos trabalhadores. As organizações precisam de colaboradores comprometidos e diligentes. Dos bons trabalhadores espera-se, num contexto laboral dotado das melhores práticas, motivação e empenho para desempenharem as suas tarefas e a sua missão de forma eficiente. Não se pode reclamar sem dar nada em troca.

É, por isso, que os Recursos Humanos são das direcções mais importantes dentro das organizações. São direcções que precisam de muita sensibilidade, humanismo, bom senso e uma infatigável capacidade de resistir a líderes inaptos e alheados do que se passa com os outros, sobretudo os que com eles trabalham. Só assim construímos uma sociedade mais justa e com futuro. Não é fácil, mas acredito que as gerações que começam agora a crescer e a afastar os anacronismos desfasados vão fazer escola, imprescindível para a construção do futuro sustentável de que urgentemente precisamos.