Siga-nos

Perfil

Expresso

Vencer o medo do futuro

Um pouco por todo o mundo sucedem-se situações que fomentam o medo colectivo. É esse medo colectivo, o medo do dia de amanhã, começa nos atentados, no terrorismo, nas guerras e loucuras que colocam a nossa vida à mercê de loucos, mas também perpassam para uma economia cada vez mais selvagem, sem freios ou travão de emergência, que pare o esmagamento das pessoas, postas à frente do comboio desgovernado do neoliberalismo sem regras.

Vamos chamar “os bois pelos nomes”. Vivemos hoje em constante estado de sítio. Ninguém tem a vida pessoal ou profissional segura. Ninguém tem certezas garantidas. Todavia, mais do que tudo, o medo contagia e explica muitas escolhas, muitas delas pela lógica do mal menor, tantas tomadas de posições, tantos silêncios e tantos constrangimentos.

Em nome de uma suposta certeza ideológica, a austeridade expansionista, o medo correu a campo aberto. Ou melhor, matou as firmes ideologias. O que é hoje ser socialista ou social democrata? O que é hoje ser keynesiano ou liberal? Nada interessa, não há diferença ou distinção. A agenda é comum, global e rígida. A cartilha é para aplicar sem hesitações ou estados de alma. O espaço de debate, o campo da filosofia, da moral, do dever ser, o campo da disputa de lados, da salutar diferença de opiniões e de propostas políticas alternativas encolheu-se ou desapareceu. Dir-me-ão, que a realidade é mais forte, que a falta de crescimento, de criação de riqueza, de competitividade da economia, o Produto Interno Bruto que pouco cresce é a raiz, a causa de todo este medo. Certo. Que a meta do défice, da redução da dívida tolda, afasta qualquer debate ou pensamento alternativo. Não pode ser. E a solução portuguesa assim o demonstra. Vivemos um tempo em que um Governo se congratula com o decréscimo do défice no valor de décimas, sobretudo à custa da redução de investimento público (aquilo que é uma das bases do crescimento futuro), um Governo dito de esquerda, formado por quem, quando era oposição, atacou, vilipendiou e criticou batalhando contra a “austeridade” e a redução do défice de 11% para 3%.

Todavia este ponto, basta este ponto, para demonstrar bem a falta de honestidade intelectual do debate público.

Existiu um período que nos disseram ser de excepção, condições extraordinárias, irrepetíveis. Graves desequilíbrios macroeconómicos e finanças públicas fora de controlo. Ainda assim a excepção, como todos nós contribuintes da República bem sabemos, virou normalidade. O extraordinário transformou-se em ordinário, em hábito. Quando cedemos, dificilmente revertemos. Sabemos disso, sobretudo no domínio das contribuições e impostos para o Estado.

Olhemos para a média nacional em matéria de impostos. Os impostos e contribuições para a Segurança Social levaram, em média, 41,5% dos salários dos portugueses em 2016, tendo em conta trabalhadores com salário médio e sem filhos. Na Suíça são 21%. Só para termos um termo de comparação. Contudo, se o que recebemos em troca fosse equivalente, penso que não seria injusto. Lamentavelmente não é. Na Alemanha são 49,9%. Mas lá, não por cá, os direitos são direitos a cumprir e as regalias evidentes e sentidas.

No entanto, olhamos em volta e o que vemos? Um rumo? Um horizonte de esperança? Uma forma de criar condições para vencer o medo? Um sonho mobilizador da nossa comunidade em busca de um futuro mais justo e melhor para todos?

Não. Não existe de todo. E não existe do topo à base. Já o tenho dito e não me cansarei de o repetir. O futuro dá medo, pois a vida prova todos os dias, que, em média, os mais jovens vão ganhar menos que os pais. E este retrocesso geracional é a base do medo e da insatisfação. Hoje em dia ter um canudo na mão não é garantia de emprego. Agora, sabemos que bem mais tarde será o corte com os pais, a ansiada vida independente, para não falar na natalidade incipiente e consequentemente tudo isto tem impacto social, demográfico e económico. Nas contribuições para a Segurança Social, para dar um singelo exemplo. E que impacto, quanto mais durar o marasmo e a estagnação maior ele será.

É deste medo que falo. A falta de horizontes, de sonhos e projectos para uma vida melhor para todos os cidadãos. A falta de uma discussão séria e honesta, sem ditaduras do politicamente correcto ou palas ideológicas. Global. Metendo a Europa nesta difícil equação. Para que nos serve a economia de hoje em dia? Os Orçamentos de Estado? Os Pactos de Estabilidade com patrocínio de Bruxelas? As metas, relatórios e orientações do FMI?

Regressemos à falta de sonho, de aspiração por um futuro melhor. Existe hoje uma efectiva redução dos direitos sociais. E o que são os direitos sociais? São garantidos? São os mínimos dos mínimos para um ser humano ter uma vida condigna? E a pobreza? O que é a pobreza? O que é o “mínimo de dignidade humana”? É ter pão? É ter habitação? É ter televisão e internet em casa?

E como fica a esperança média de vida no meio destas questões? Como podemos viver mais tempo, se o futuro não augura melhores dias?

Sei que não tenho as respostas todas, mas também sei que vivemos os dias, as semanas e os meses a discutir questões laterais, a viver da receita chapa cinco, centrados na espuma dos dias. É assim, são ordens, são imposições, normalmente de longe. De Lisboa, de Bruxelas, de Frankfurt, de Washington e talvez até de Pequim. Há sempre uma entidade externa para ficar com as culpas. E o medo insiste e resiste. Continua cá, a hipotecar o futuro.

Falta uma agenda para matar o medo do futuro. Uma agenda humanista, mas responsável. Que saiba não ter medo da dimensão pública, privada e social. Que não tenha a ideia do Estado paternalista que tudo pode e tudo faz, mas que saiba os limites, as regras, que traga transparência, accountability e que acima de tudo sirva as pessoas, a comunidade que o suporta.

É pedir muito, mas só o sonho vence o medo.