Siga-nos

Perfil

Expresso

As eleições francesas e a Europa

23 de Abril. A data está marcada e promete. A França, terceiro país com maior Produto Interno Bruto da Europa, vai a votos. Escolhe o próximo Presidente para um mandato de cinco anos.

Esta eleição, não é uma mera eleição gaulesa. É uma eleição central para a Europa, sobretudo em tempo pós-Brexit. França é um dos pilares europeus, da fundação, da economia e da força que a União Europeia apresenta, componente do chamado motor da integração europeia, o eixo franco-alemão.

Diria que de França, tal como das terras do Tio Sam, vem sempre um bom enredo. As novelas, os dramas e as histórias sucedem-se e dão um brilho que poucos países alcançam em matéria de luta política. E ao sabor dessas novelas políticas, decidem-se os temas que tocam a todos os europeus.

O grande foco de atenção é a ascensão de Marine Le Pen, uma mulher que não teve qualquer problema em afastar, da Frente Nacional, o próprio pai e lidera as sondagens colocando sob pressão muito do que é hoje a base da União Europeia. O desespero, o medo e a raiva existem de tal forma nos cidadãos, por muitas razões e várias válidas, que lhes cerceiam a capacidade de racionalmente ponderarem a plenitude das consequências que determinadas escolhas políticas implicam. Demitiram-se de fazer uma reflexão fria e são tomados por emoções que não são as mais fecundadas para a tomada de decisão. Querem segurança, querem quem lhes dê a estabilidade, quem fale mais alto, quem diga as verdades, mesmo que sejam irracionais, ou tocadas por laivos de loucura. O âmago de todo este debate está neste ponto. Os Partidos de sempre, os políticos de sempre, pensaram que tinham os eleitores no bolso. Enganaram-se. Poucas são as coisas na nossa vida que podemos dar por certas ou garantidas, muito menos o voto popular. Não se pode tudo. Não dá para viver apenas e só para o sistema instalado e esquecer quem alimenta o sistema: o povo. Entre a burocracia, o economês, a ideia de que a Europa é um projecto estático e obrigatório, orientado por um Directório, criou-se este estado de ansiedade e desilusão. O processo europeu, fundado por nobres motivos o primeiro dos quais a manutenção da paz na Europa, merece ser valorizado, direcionado para os interesses dos cidadãos europeus. Países que se unem, que conseguem conversar civilizadamente, que conseguem criar instituições onde todos cabem, que conseguem fazer acordos, até uma moeda única, só pode ser um processo de enorme visão e capacidade de partilha. Todavia, algures no meio deste processo, os decisores perderam a ligação aos eleitores. Um processo europeu só se constrói envolvendo, reforço o que já disse, os europeus. Respeitando as diferenças entre países e criando pontes sólidas, não imposições draconianas ditadas a partir de Bruxelas, pelos grandes aos pequenos.

E é aqui, nesta imposição que cresce a força de Marine Le Pen. É certo que a França tem sido, e muito, fustigada por atentados terroristas, pelos problemas de integração da imigração, mas também por duas nulidades no Eliseu. Sarkozy e Hollande foram duas desilusões, da direita e esquerda tradicionais. Elevaram expectativas e desiludiram amplamente as expectativas dos eleitores. Os trajectos de ambos demonstram bem essa desilusão. Um perdeu, o outro nem ousou tentar.

No meio deste vendaval partidário, sim, porque os Partidos tradicionais (Conservadores e Sociais-democratas, para não falar da ausente Democracia Cristã) hoje atravessam uma grave crise, surge uma voz serena. Não é um nome que caiu do céu. Não. Esteve sempre ali.

Cresceu no meio dos Partidos, desempenhou cargos, viveu dentro do sistema. Emmanuel Macron aparece como uma voz de esperança, porque viveu no sistema e percebeu a podridão que lá reina. Ousou avançar. Em marcha, apela no seu slogan de campanha. Não é o tipo que vem dizer as asneiras à la Trump, ou instigar o medo como Marine Le Pen. Não, vem dizer o que pensa, dentro um campo moderado, social-democrata centrista, assente na justiça social, mas na obrigação de dinamizar a economia francesa. Quer reduzir o peso do Estado nas grandes empresas nacionais, mas ao mesmo tempo quer dar incentivos às empresas para contratar pessoas de bairros problemáticos. Aposta na diminuição do número de deputados e na incompatibilidade de cargos públicos com consultorias.

Registei uma frase que resume o seu programa: “A sociedade que eu idealizo será, por um lado, livre de bloqueios e constrangimentos e, por outro, protetora dos mais fracos”. Não é isto a base da social-democracia?

Penso que é por aqui que passa a resposta aos extremistas que, um pouco por toda a Europa, tentam o assalto ao poder. Uma agenda focada em proteger quem não está inserido na sociedade, com respeito pela transparência dos cargos públicos, mas uma economia livre e pujante, que permita a concorrência regulada e um crescimento que atraia investimento e chegue aos cidadãos.

Tudo isto vai a votos no dia 23 de Abril. Neste momento, num regime semi-presidencialista diferente do português, com o Presidente mais preponderante, com duas voltas, onde os candidatos não têm medo de se apresentar e de “dividir” o eleitorado, que diferença para Portugal, onde a ideia de vários candidatos nos diferentes espaços políticos arrepia (aliás como contraponto da ousadia francesa, temos o típico receio português), assim, segundo as sondagens (sempre elas), temos quatro candidatos bem posicionados. A extrema direita e a extrema esquerda com Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, cavalgam o medo e o populismo, François Fillon, o grande favorito, uma cara de sempre na vida política francesa, depois do tiro no porta-aviões que foi a descoberta dos empregos familiares, continua a acalentar a esperança, apesar de hoje soar a passado embaraçante, aquele que era o conservador liberal em quem o eleitorado se podia fiar. Sobra Macron. Eu não voto lá, mas gostaria de ter por cá uma nova cara, fresca, com ideias, com estrutura sólida e vontade de dizer o que pensa. Com coragem de avançar e colocar em marcha as suas ideias. Gostava mesmo de ter em quem depositar as esperanças de forma positiva, e não por via do medo ou da tradicional e desesperante escolha do mal menor.

Não votamos em França, mas é obrigatório estarmos atentos. A França é um pilar da Europa e não vale a pena deitar fora muito do que de bom já foi feito. Reformar? Sem dúvida. Melhorar? Totalmente de acordo. Rasgar e deitar tudo fora? Não vale a pena e não seria uma "destruição criadora”. Não é pelo medo que iremos avançar.