Siga-nos

Perfil

Expresso

CoLAB e Fundação Oceano Azul modelos a seguir

Uma das grandes discussões que, por vezes, surge prende-se com a ideia preconceituosa de que a investigação é fundamentalmente cara e traz reduzido retorno para quem a faz. Discordo determinantemente, deste preconceito instalado e muito propagado na nossa comunidade.

Investigar é um dos maiores contributos que nós, seres humanos, podemos dar à sociedade.

A investigação e a inovação, que são conceitos distintos, mas que vivem em grande proximidade, obrigam a uma forte visão e comprometimento das lideranças.

Cada euro gasto em investigação, deve ser visto como um investimento para o futuro, não para daqui a três anos, pois este domínio da vida requer paciência e persistência. Obviamente, as necessidades prementes e a pressão temporal obrigam as instituições a pressionar no sentido de encontrar resultados depressa. No entanto, investigar requer tempo, dedicação, tolerância ao erro. É preciso saber esperar, o chamado adiar a recompensa. Esta é uma atitude difícil nos dias que correm, pois fruto dos constantes estímulos, a que estamos sujeitos, na era digital, espera-se pela gratificação a cada passo. Lamento desiludir os mais apressados, para termos resultados demora, basta pensar que os códigos de barras começaram a ser pensados em 1948 e começaram a espalhar-se, a partir dos EUA, ao resto do mundo somente nos anos 80…

Assim é, com natural satisfação que, há três semanas, li a notícia do Expresso sobre a ideia de o Governo lançar o CoLAB.

O que é? Recorro à Fundação para a Ciência e Tecnologia para a melhor definição: "Os Laboratórios Colaborativos são associações ou consórcios de unidades de investigação, laboratórios associados, instituições de ensino superior, instituições intermédias e de interface, centros tecnológicos, empresas, associações empresariais e outros parceiros relevantes do tecido produtivo, social ou cultural, como Laboratórios do Estado, autarquias e instituições associadas a organizações locais, unidades hospitalares, museus, arquivos, ou instituições sociais, nacionais ou internacionais (entidades participantes)."

Para a constituição deste projecto estão duas ideias seminais: cooperação e criação de valor. Só podemos elogiar e encorajar ideias destas.

A investigação é, de facto, cara. Não, não me desdisse. A investigação de ponta, com a utilização de ferramentas e instrumentos de topo, obriga a um forte investimento que muitas organizações não conseguem aceder sozinhas, por mais vontade que tenham (basta pensar que o CERN, que possui o mais famoso acelerador de partículas do mundo e onde nasceu a Internet, é uma parceria entre 22 Estados). Por isso, esta ideia de rede, já muito utilizada por investigadores espalhados pelo mundo fora, é de saudar.

A concorrência é o estímulo que faz rodar as empresas. O factor de diferenciação, a capacidade de encontrar respostas de forma mais rápida e eficiente com novos produtos ou serviços, fazem da competição um incentivo à investigação e à inovação. Não chega fazer rápido é preciso fazer bem. Portanto o que vemos com o lançamento deste projecto é a criação de uma união que haja força, para superar os desafios complexos e exigentes que a investigação científica de ponta acarreta. Força gerada pela partilha de conhecimento. E que força.

A ideia de juntar pessoas com percursos, curriculum, valências e percursos de vida diferentes são um dos poderes que a multidisciplinariedade nos dá. Aprender com o processo, aprender fazendo. Aprender partilhando experiências e know-how. É, de facto, um instrumento poderoso.

Não obstante, não quero deixar de salientar a necessidade de criar valor. No mundo da globalização capitalista temos de monetizar as descobertas que são feitas, pois, de outra forma, não geraremos recursos para prosseguir com o investimento. A ideia de criar sinergias, de vir fomentar o mercado de trabalho dos investigadores, de aprofundar a ligação universidades-empresas, são trunfos que podem resultar em excelentes mais-valias para as organizações que participam neste projecto. E de igual modo esta colaboração torna-se mais-valia para a sociedade.

Tal como é uma mais-valia para a nossa sociedade a Fundação Oceano Azul, inaugurada na semana passada, que conta com Tiago Pitta e Cunha, um dos maiores especialistas mundiais sobre os assuntos do mar.

Esta Fundação, para além de se ocupar da gestão do Oceanário, um marco da cidade de Lisboa e do Parque das Nações, terá a responsabilidade de criar uma rede nacional e internacional de parcerias científicas que, no prazo de cinco a dez anos, faça com que Portugal seja um centro mundial de excelência na oceanografia. Esta ideia, nascida da inspiração da família Soares dos Santos, terá a dotação inicial de 55 milhões de euros, para influenciar a agenda mundial dos oceanos para o século XXI. Ambicioso, mas ao mesmo tempo desafiante.

O mar é a maior herança que os portugueses receberam dos seus antepassados, foi a nossa histórica porta de entrada para o mundo e para a história do mundo. E nós, herdeiros desta costa marítima e desta enorme Zona Exclusiva Económica (que, dependendo da decisão da Comissão de Limites da Plataforma Continental das Nações Unidas, poderá ficar ainda maior) devemos estar à altura da herança. Devemos ter a capacidade de, com esta redescoberta do mar, assegurar a nossa sustentabilidade económica, social e ambiental. Neste ponto, não posso deixar de sublinhar o excelente desempenho que o país tem, graças à acção da Força Aérea Portuguesa e da Armada, na sua extensa Zona de Busca e Salvamento (a segunda maior do mundo), algo que reforça a nossa pretensão junto a ONU e demonstra a excelência de que as instituições nacionais são capazes, muitas vezes com parcos recursos, porém com abundante espírito de missão de quem lá trabalha.

Vem em muito boa hora a implantação desta Fundação focada no Mar, que é também uma prova de vitalidade do sector privado nacional e da sociedade portuguesa, por vezes, demasiado “estatocêntrica”.

São exemplos destes que nos fazem acreditar que vale a pena investigar, pesquisar e inovar. É este o espírito que fará mais pelo nosso país. Muito mais do que as faraónicas obras públicas, ou que o investimento em património e rotundas por si só.