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Expresso

Assalto ao castelo: ainda o BES

A SIC, de novo com o premiado jornalista Pedro Coelho a guiar-nos pelos escabrosos meandros da finança, apresentou na semana passada um excelente documentário sobre o caso BES, na óptica da regulação bancária. São enormes lições que devem ser apreendidas, sob pena da repetição do erro que, no que a crises bancárias diz respeito, sai cada vez mais caro. Não pode ser mais um caso em que a opinião pública fica chocada, mas depois a agenda político-mediática segue em frente e nada acontece.

Este país tem muito este defeito, talvez seja feitio. Vê atrocidades, vê falsidades, vê posturas do mais transviado que existe, mas encolhe os ombros e segue em frente. Trata-se de um fenómeno parecido com um certo voyeurismo de acidente rodoviário, abrandamento junto ao sinistro, susto quando o cenário é dramático, alívio porque aconteceu aos outros e vá de rapidamente retomar viagem, sem pensar, por breves instantes sequer, se praticamos uma condução defensiva. Desde que a vida de cada um esteja a correr bem, para que servem sobressaltos ou trabalhos? Afrontar os poderosos? Arranjar chatices, isso ninguém quer… Incompetência? Abuso de poder? Ignorantes, desleixados ou déspotas em determinados cargos? Desde que não nos toquem, siga a marinha.

No entanto, este caso em concreto merece uma profunda e séria reflexão, sem pendores ideológicos. O papel do Banco de Portugal e a acção do seu Governador, bem como da sua área de Supervisão, precisam de ser analisadas e revistas, com a devida ponderação. Quem regula um sector tão sensível e nevrálgico para a nossa economia, como é a banca, deve ter os meios, a capacidade, mas também, ou sobretudo, a vontade de agir preventivamente. Deve ter as ferramentas necessárias para antecipar desgraças financeiras. Deve ter ao seu dispor um conjunto de medidas para neutralizar potenciais problemas. Chega de viver em regime de “casa roubada trancas à porta”.

O BES foi um problema, ou melhor, prossegue como problema na nossa economia. As ondas de choque ainda se fazem sentir. Não apenas o ocaso trepidante do banco, mas também as consequências do fim do império Espírito Santo. Portugal Telecom, Banif e um sem número de operações e fidelidades que não encontram paralelo. Foi um tiro na nossa economia que pagámos, pagamos e iremos pagar bem caro. O Banco de Portugal podia e devia ter feito mais? Não podemos negar que, sobretudo depois de espreitarmos para lá das muralhas que o separam e tapam do olhar crítico dos cidadãos, sim. Todavia a culpa não é toda, ou essencialmente da supervisão. É de também de quem geriu, de acordo com os elementos divulgados pelos media, de forma desastrosa o paquete BES/GES em direcção ao naufrágio, arrastando os incautos passageiros, que sempre confiaram no prestígio e experiência do comandante do navio.

Não obstante, devemos ter a capacidade de analisar friamente o que se passou. Não podemos cair na tentação de reescrever a história. O revisionismo é uma falha grave, na qual certas linhas políticas, para se justificar ou consolidar, muitas vezes incorrem. E a sucessão histórica dos acontecimentos diz-nos que existiu um grupo económico que foi amplamente beneficiado e protegido pelo regime antes e pós-25 de Abril. Que, por vezes, se confundiu com o regime. E a história também nos diz que Pedro Passos Coelho, o Primeiro-Ministro em exercício quando deflagrou o incêndio BES/GES, foi um homem de coragem ao dizer não a um massivo apoio a esse grupo. Apesar das pressões que sofreu e das múltiplas iniciativas que foram desenvolvidas.

Poucos, repito poucos teriam a coragem de o fazer. Peço a quem me lê que se concentre e se questione, sem preconceitos, quanto dos anteriores e actuais titulares de cargos políticos teriam a força e a audácia de o fazer? Foi a queda de um regime e de uma certa forma de funcionar da nossa economia e sociedade que terminou. A nossa economia não pode ter Donos Disto Tudo. Precisa de respirar livremente, precisa de novos actores e não de novas tutelas. É um mundo desconhecido? Ainda bem. Já chega dos de sempre. Foram os de sempre que nos trouxeram até aqui. Quer na economia, quer na política, que sempre viveram em permanente conúbio. Foi uma geração que se deixou envolver em redes e cumplicidades, em formas de estar e de fazer negócios público-privados que privilegiaram as suas cómodas situações, em detrimento do bem comum. Onde o mérito foi palavra de discurso, onde a coragem só existe até ao momento em que se belisca o interesse próprio, onde a rectidão não parece ser virtude, mas antes falha de carácter.

Ainda bem que existe uma comunicação social livre e que nos diz o que se passa. É, também por isso, que a SIC, assim como o grupo Imprensa, está de parabéns. Pela coragem de denunciar, de explicar, de fazer luz onde só há penumbra. A liberdade de imprensa e de expressão é um valor acima de qualquer interesse pessoal. A liberdade é um valor inestimável, pela qual muitos se bateram e pereceram. Que entre o ar puro da liberdade e faça sair o mofo dos velhos do Restelo.