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Longe de estar acabado, Cavaco voltou

É verdade, Aníbal Cavaco Silva regressou e não poupou os dirigentes maiores da actual fase da República, nomeadamente visou António Costa e, como é costume no tempo novo, ninguém notou.

Anda tudo muito distraído. Apesar das exportações estarem em claro abrandamento e os juros da dívida pública em franco recrudescimento.

A propósito das comemorações dos 25 anos da assinatura do Tratado de Maastricht, o antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, disse isto: “Espero que os líderes europeus estejam à altura das suas responsabilidades e correspondam, dessa forma, às expectativas dos cidadãos. Receio, no entanto, a ignorância de alguns deles em relação às consequências dramáticas que uma rutura da união monetária teria na vida dos cidadãos”.

Uma frase forte, que acaba por ir ao encontro de muitos dos anseios e inseguranças que pairam por essa Europa fora. Ninguém deu destaque às palavras do anterior Chefe de Estado. Ninguém procurou ou se maçou em fazer a ligação com outras declarações. Isto aconteceu sendo notório que no político Cavaco Silva nada é feito ao acaso. Não existem frases lançadas ao vento. Poucos notaram, mas António Costa escreveu, no prefácio do livro “Para lá da 'Geringonça' - O Governo de esquerdas em Portugal e na Europa”, do sociólogo, politólogo e professor do ISCTE-IUL André Freire, isto: “A comunhão na opção europeia não elimina, por exemplo, uma rutura quanto à urgência e natureza da reforma da União Económica e Monetária”.

Bem sei que o novo livro de Cavaco Silva será apresentado esta quinta-feira, coincidindo com o próprio nome do livro. Não obstante, esta pequena declaração de Cavaco fustigou o actual Primeiro-Ministro.

Bem sei também que hoje não é popular falar ou elogiar o consulado de Cavaco Silva na Presidência da República. O político que mais tempo governou em Democracia, que mais influenciou o rumo do país, na modernização e atraso, e que é hoje persona non grata da elite bem-pensante. É extraordinário. Num mundo em que os complexos e os preconceitos estão, a cada dia que passa, a vir cada vez mais ao de cima, vemos certas luminárias, sobretudo mais à esquerda, ou por vezes na esquerda da direita, enlevadas e magnetizadas por um Presidente de sentimentos e afectos. Alguém que vem de um estrato social elevado, filho de um antigo Governador de Moçambique, e, entre outras pastas, Ministro das Corporações e Previdência Social, que partilha do nome do último Presidente do Conselho, um católico fervoroso, a quem tudo é permitido e tudo é perdoado. Está nas boas graças do regime, é o Professor Marcelo, familiar a todos, depois de anos de comentário dominical. No entanto, alguém que subiu na vida a pulso, alguém que cometeu a imprudência de sair de Boliqueime, antes de tempo, para estudar, crescer e chegar ao ponto mais alto, sem ser fruto dos almoços e jantares de salão, filho de sicrano ou beltrano, é vilipendiado e, não raras vezes, alvo de chacota.

Cavaco Silva foi, sem dúvida, o Primeiro-Ministro que mais alterou a nossa economia, depois do ciclo acelerado de nacionalizações, feito no contexto do Verão Quente de 1975, em que a frente de esquerda dominava. Esteve no centro de muitas decisões importantes, de muitas alterações de mentalidade. Abriu o país aos privados, deu os primeiros passos numa Europa que foi, na altura, o Tio generoso que nos ajudou a fazer auto-estradas e muitas rotundas.

Todavia Cavaco Silva sempre foi o político que melhor entendeu os ventos económicos para tomar decisões políticas. Sempre olhou para os números de forma a perspectivar o desfecho dos seus combates políticos. E sempre teve o poder, e que poder, no uso da palavra, tanto mais que é parcimonioso no seu emprego. Lembro três casos emblemáticos. O monstro, no primeiro grande ataque a António Guterres, lembro o cartão amarelo, ou mesmo encarnado, que marca a saída de Guterres e lembro o célebre escrito da Lei de Gresham que surgiu apenas e só para abrir espaço à sua candidatura presidencial em 2006. Neste último, o homem que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, falhou redondamente. Um dos grande males do país foi a troca de moedas de 2005. Que ainda hoje pagamos caro. Bem caro. Mas, no geral, sempre foi um homem que geriu o silêncio como poucos, mas nesta fase, de popularidade em baixa, os senhores jornalistas e a opinião pública andam desatentos. Esperemos pelo livro, que aumenta o seu acervo autobiográfico, que já tem alguns teasers deixados na última edição do Expresso, no passado fim de semana, para perceber o que Cavaco nos quer dizer e que alertas deixa nas entrelinhas.

Sendo certo que a presença de Cavaco Silva na discussão pública a torna mais esclarecedora e interessante. É que passámos de um Presidente comedido, para um Presidente imoderado. Apesar disto, não podemos degradar o prestígio de que se deve revestir a figura presidencial. Ela existe para ser um garante do regular funcionamento das instituições, não um seguro de Governos, não um liquidatário de Governos, mas sim um moderador, que intervém quando as circunstâncias o exigem e não sempre que se ligam as câmaras de televisão.

É importante reflectir sobre o que Cavaco Silva nos diz, não podemos esquecer os seus dons de antecipação, que, no passado, muitas dores teriam evitado, se os seus avisos fossem atendidos.