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Expresso

Da panificação à confusão

O poder das redes sociais segue em força marcando a ordem do dia. Basta uma frase proferida mais ao lado, uma opinião diferente do politicamente correcto e o viral alastra, sem se preocupar com o detalhe, contexto ou em perceber o assunto a fundo. Vem tudo isto a propósito do affair “Padaria Portuguesa”. Sim, não resisto a falar da espuma dos dias. Contudo para levantar a questão mais profunda, e não ficarmos na mera discussão pela rama, perdidos em detalhes de cremosidade de bolas de Berlim ou em esmiuçar se o pão de Deus e o menu pequeno-almoço valem o esforço da zanga.

Foram declarações pouco avisadas, de um empresário que criou uma importante cadeia no sector da panificação e restauração. Um dos grandes defeitos da nossa sociedade, sim da portuguesa, é o mal da inveja. Sobretudo, no que ao sucesso diz respeito. Não estou, de todo, a menorizar o que foi dito pelo Director da Padaria Portuguesa. No entanto, os comentários furiosos pelas redes sociais confundem a criatura com o criador, tanto mais que não consta que a cadeia, alguma vez, tenha sido condenada de violar a legislação laboral em vigor. A inveja que se espalha a cada esquina, ou melhor, a cada bairro, ao abrir uma nova Padaria Portuguesa, ainda por cima com preços competitivos, quando comparado com outros concorrentes, é causa de ciúmes e azedumes para com um modelo que se tem revelado bem-sucedido.

Indo à questão de fundo, a falta de flexibilidade do mercado de trabalho. Hoje, vivemos num mundo laboral rígido, mas atenção a rigidez e a protecção são de quem tem um contrato sem termo, realidade que convive paredes meias com quem vive com contratos precários, com recibos verdes ou parece ser um eterno estagiário. As duas dimensões do mercado laboral são tão antagónicas que nos devem fazer reflectir sobre a sociedade em que vivemos. Como já referi, no Caderno de Economia do Expresso, o mercado de trabalho português sofre de um fenómeno de segmentação que carece de estudo aturado para a sua resolução.

Não acredito que se devam cercear os direitos dos trabalhadores, reforçando o poder e discricionariedade dos patrões. O que está em causa é uma desigual relação de forças, uma situação de poder negocial assimétrico. Quem protege o trabalhador empenhado do assédio laboral? Mas e se invertermos os papéis? Que opções tem um patrão com um funcionário que não rende, por má vontade e preguiça, mas que tem o seu posto de trabalho legalmente blindado?

O direito ao trabalho é um direito básico e natural de qualquer ser humano. Todos nós precisamos de nos sustentar, de recursos para acudir às necessidades básicas. São necessários víveres, um lar, vestuário e calçado e meios para atingir os nossos objectivos. E é fruto do trabalho do trabalho que se podem obter os bens de que precisamos e os instrumentos de que a nossa realização pessoal carece.

O que o Director da Padaria Portuguesa não disse e deveria ter dito, é que gostaria de ter uma flexibilização na jornada de trabalho, com o condizente incremento salarial a quem trabalhasse mais. Porque é este o espírito que deve guiar as organizações, a bilateralidade, não o mero exercício de domínio dado pela necessidade de quem precisa de ganhar o seu sustento. Quem trabalha mais, quem é mais produtivo tem de receber mais. Não é esta a forma, que vem nos vários manuais de gestão de recursos humanos, de criar empenho nos colaboradores? É fundamental uma cultura de respeito. Do patrão e do trabalhador. Cada patrão ou superior hierárquico, mais ou menos benevolente, deve olhar para o seu funcionário como uma pessoa que está a trabalhar com ele. Não para ele. Cada trabalhador numa empresa ou organização, está a desempenhar as suas funções em prol da empresa ou da entidade patronal, está lá para acrescentar e se dedicar com zelo às suas obrigações. Um patrão deve exigir o máximo de empenho, de entrega e profissionalismo. Mas não pode, nem deve, cair no excesso, no abuso. Deve ter respeito pela pessoa humana. Pelos seus problemas, pelas suas angústias. Deve procurar preservar o bem-estar dos que o rodeiam. O pagamento do salário não dá direito de propriedade sobre quem trabalha. Ninguém manda, sem limites, em ninguém. Existem hierarquias, mas as hierarquias estão no plano da gestão, associadas à necessidade de encontrar soluções e mecanismos de potenciar o negócio. Cada Patrão, cada Chefe/Director/CEO/Responsável de Serviços, deve procurar retirar o melhor dos seus colaboradores, com respeito, num esforço solidário de equipa. Deve perceber que cada trabalhador é uma pessoa que tem vida para lá do trabalho. Deve respeitar a vida e o ambiente familiar exterior ao mundo laboral. Não tenho dúvidas que um trabalhador que tenha o respeito da entidade empregadora será muito mais dedicado e produtivo. No final das contas, é a produtividade que conta certo ou errado?

Ainda assim, este compromisso de respeito é necessariamente extensível ao trabalhador. Quem trabalha por contra de outrem não pode ter uma postura indolente, indiferente, culminando num constante “pôr o corpinho de fora”. Cada trabalhador deve empenhar-se na sua empresa ou organização, desempenhando responsável e zelosamente as suas funções. E deve ter a noção que é do seu trabalho que advém a rendibilidade e saúde da sua empresa, logo o meio de sustento para, no fim do mês, existir um salário a cair certinho na conta.

É uma filosofia importante. O compromisso de respeito e empenho partilhado. Não há patrões sem trabalhadores, nem trabalhadores sem patrões. Podem mudar de empresa ou de empregados, mas sem compromisso e partilha não há espaço de crescimento.