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Expresso

América, o isolacionismo no horizonte

Ouvi tranquilamente o discurso de tomada de posse do 45º Presidente dos Estados Unidos da América, Donald J. Trump. Aliás, vendo a cerimónia constata-se que é um verdadeiro espectáculo. Estima-se que tenha custado, ao todo, cerca de 200 milhões de dólares. Pelo valor entendemos a dimensão e impacto que este dia tem no país.

Um Presidente em modo de campanha. Foi o que, para mim, ficou do discurso. Zero de intenção de unir, de fazer pontes ou de promover a convergência. Muita vontade de fechar, de separar.

O Presidente Trump tem toda a legitimidade política para avançar com as suas ideias. Venceu uma eleição que poucos acreditaram que ele ganhasse. Apesar de menosprezado por todos, incluindo a elite do Partido Republicano, foi vitorioso. E quando se vence, governa-se. É assim que funciona a Democracia, vai-se a votos, em eleições livres, e o mais votado, de acordo com as regras eleitorais estatuídas, ganha.

No entanto, a ideia-chave de Trump, que fica mais vívida, é a prioridade ao “Made in USA” sem olhar aos compromissos assumidos pelos EUA, nomeadamente nos diversos tratados comerciais de que são Estado parte.

A eleição de Trump é um grande desafio à globalização, à sua inabalável e incessante expansão, que, para muitos, parecia irreversível. E é irónico que seja um Presidente conservador, de direita, multimilionário e empresário a fazer tremer a ideia do comércio livre e do mundo globalizado. Ao mesmo tempo temos, em Davos, o Presidente da República Popular da China a defender a globalização económica, qual paladino da causa, a propor melhor coordenação e uma abordagem interligada para promover um mundo de cooperação aberta e benéfica para todos. Parece que estamos a olhar para um mundo ao contrário.

Tudo isto que estamos a viver carece de uma apurada reflexão. Sobretudo, deste lado do Atlântico. Que resposta dará a Europa a esta nova forma de estar dos americanos? Como nos iremos posicionar perante a ideia de uma América mais fechada, mais proteccionista e mais preocupada com o seu umbigo? Como responder ao possível encolhimento do guarda-chuva de defesa europeu, a NATO? Atenção, o povo americano tem toda a legitimidade de escolher o seu caminho. Bem sei que o cargo de Presidente dos EUA é aquele lugar sobre o qual muitos, dados os efeitos que tem sobre a vida do resto do mundo, gostariam de ter uma palavra a dizer. Tanto mais que todos nós sabemos que em muitas das políticas que lá se fazem, sentem-se mais os efeitos noutras paragens mais afastadas. Mas, para mal dos nossos pecados, não temos voto na matéria.

Convém sublinhar que os efeitos da viragem pretendida, pela Presidência Trump, sobre a Europa não se limitam à economia e à defesa, mas entram também no âmago do político, não só quanto à construção europeia, mas também sobre alguns processos eleitorais que se desenrolarão a breve trecho, em vários países europeus. Como já foi dito pelo Presidente Trump tanto lhe faz que haja União Europeia como não, o problema do número a marcar para ligar à Europa já não se põe, e poderá haver a tentação de, por vontade própria ou pedido alheio, participar nas eleições francesas e noutras, como as holandesas e italianas, que se avizinham, ou não tivesse Marine Le Pen visitado Nova Iorque, há cerca de duas semanas atrás. Os assessores de Trump negaram que os dois se tivessem encontrado, provavelmente a líder da Frente Nacional foi em turismo, tendo parado na Trump Tower somente para visitar o edifício e beber um café…

O mundo começa agora um novo processo de mudança, cuja natureza e carácter só a prazo poderemos avaliar e sentir na sua plenitude. A forma como nos ligamos, sobretudo ao nível económico, está em mutação.

Duas grandes preocupações imperam já no plano económico. A ideia de acabar com a pouca regulação que existe numa economia global já se si selvagem e a ideia de não reconhecer os problemas ambientais que o mundo enfrenta, continuando a aposta clara e histórica nos combustíveis fósseis, como motor da economia. Só estes dois temas deixam qualquer um preocupado.

Agora, na América, é tempo da acção, depois do tempo das promessas eleitorais. E é tempo de a Europa perceber que precisará de nervos de aço e massa crítica, que lhe permita a margem de negociação necessária, para lidar com alguém tão imprevisível, quanto o Presidente Trump parece ser. Ajustemo-nos obviamente. Mas também lutemos por um mundo com lógica e reforcemos a nossas capacidades endógenas, os escudos-protectores apoiados pelos outros não duram sempre.