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Expresso

A alvorada do mundo Trump

O ano de 2017 começou e já temos vontade que acabe. Ao contrário de 2016 não é bissexto, neste ano novo do Galo, segundo o horóscopo chinês, iniciar-se-á a 28 de Janeiro, depois da tomada de posse do 45º Presidente Americano. As incertezas são grandes e os perigos espreitam e não é por haver um eclipse total na América do Norte, no mês de Agosto, que os augúrios são maus.

Na semana passada, assistimos à despedida de um Senhor Presidente. Um verdadeiro Senhor. Daqueles com quem é difícil ombrear. Daqueles que nos fazem sonhar e acreditar no melhor da humanidade, na nossa capacidade de juntos trabalharmos por um mundo melhor. Barack Obama foi a Chicago fazer um dos seus mais brilhantes discursos. Bons discursos todos podem fazer, mas aquele discurso não é apenas retórica ou facilidade no uso da palavra. Vem de dentro. É entendido como sincero e sentido. Vem de alguém que liderou, aquele que se considera e é considerado pelos demais como, o principal país deste planeta, durante oito anos e nem por isso lhe subiu à cabeça o cargo, a chamada, naquelas bandas, ego trip. Vem de quem sempre procurou manter-se como um cidadão comum, um pai de família como tantos outros, mas abraçando o peso e a responsabilidade especial do cargo. Com defeitos, mas com uma enorme capacidade de ser como nós, simples e próximo.

Este mundo deve bastante a Obama. Os EUA regressaram ao caminho do crescimento, após a mais profunda crise depois de 1929, e aceleraram a retirada dos seus militares depois das já longas, pesadas e desestabilizadoras campanhas no Iraque e Afeganistão. Manteve-se o espírito de tolerância e de liberdade, apesar dos múltiplos incidentes, que trouxeram ao de cima as cisões raciais e outras. Problemas? Muitos. Naturalmente que nem tudo foi perfeito. No final das contas, o legado de Obama é notável, sobretudo se tivermos em conta o estado de coisas que herdou.

Voltemos a Chicago. O discurso proferido, sentido por quem o faz e partilhado com quem a ele assistiu, foi de humildade, mas também de sabedoria. Onde agradeceu. Um político, mais do que pedir, deve agradecer. Sempre. Todavia ele foi mais além do que enumerar o que fez. Não precisa de andar a fazer panegíricos. Não. Obama falou do que falta cumprir. Dos riscos que espreitam. E inspira. Se inspira. Falou nas bolhas em que vivemos. No isolamento em que estamos mergulhados, alheados da realidade, por vezes, bem ao nosso lado. E lembrou-nos as ferramentas necessárias para lutar. Participação, sensibilidade e empenho. Se ficamos sentados, dando a democracia como garantida, os riscos aumentam e farão estremecer, no limite, colapsar o pior dos regimes políticos à excepção de todos dos outros. E todos sentimos esses riscos, uns de forma mais clara do que outros.

Quem incita a ódios, quem procura construir muros, semear a discórdia, dividir para reinar e fechar mentalidades, está apenas a promover uma falsa ideia de segurança. Não estará a contruir mais do que uma bem arquitectada, porque simples, falácia, que se esboroará ao teste do tempo e da realidade dinâmica dos nossos dias velozes.

Obama é uma inspiração. Com todos os defeitos que tem ou não fosse de carne e osso, como todos nós. O que fica, para além da palavra e da acção política é o exemplo para todos nós.

Custa ver partir um Presidente assim. Custa muito.

O sentimento de perda é ainda maior quando, no dia seguinte, vimos a primeira conferência de imprensa do novo Presidente Donald Trump. Que abismo os separa. A falta de maneiras, o estilo trauliteiro e manhoso, o irradiar de ódio. Sim. Mudámos a página. E esta página que se abre parece trágica. Ainda mal começou a ser escrita, mas é um daqueles livros que lidas duas páginas colocamos prontamente na estante e rapidamente o queremos esquecer. É vulgar demais.

Um Presidente que começa indo de imediato contra os jornalistas, os serviços de informações, que tem uma relação mal explicada com a Rússia, cujos contornos escabrosos ficam incertos a pairar no ar, e que vive furiosamente como tudo fosse redutível aos 140 caracteres do Twitter, só pode ser um Presidente que vai mal encaminhado. Esperemos que o cargo e os pesos e contrapesos do sistema americano o coloquem nos eixos.

Na grande potência americana a incerteza grassa, agora junte-se o que pode vir aí. Deste lado do Atlântico. De França e de Itália, na Alemanha Angela Merkel parece menos sólida, mas, ainda assim, firme. O Reino Unido, tradicionalmente virado para o mundo, parece absorto no seu Brexit. Aliás, já começaram, há algum tempo, os muros na Europa, que o digam os refugiados deixados à sua sorte debaixo das neves inclementes e do medo e indiferença europeia. De Inglaterra chega, ainda, a ideia de criar um imposto adicional a cada empresa que contrate um colaborador europeu.

É este o novo mundo, o mundo Trump. O mundo do salve-se quem puder. É caso para perguntar se depois de tanta tecnologia, de tantos filósofos, de tantas guerras e disputas, é este o mundo que queremos construir?

Por mim, digo que não. Não me revejo num mundo em que não exista capacidade de diálogo e de relacionamento com os outros, sejam eles mais ou menos como nós. Não podemos continuar a construir muros. E por cada muro que surja, devemos fazer toda a força para o deitar abaixo. Somos todos uma só humanidade, com certeza não poderemos esperar que sejam os marcianos a vir resolver os nossos problemas por nós. Temos um só mundo para viver, temos de o tornar melhor e mais justo para todos.

Recordemos o discurso de Obama. Acreditemos na nossa capacidade. Foi isso que ele fez. Desafiou-nos. A todos nós cidadãos. A cidadania não é um mero direito traz consigo o dever. E cada um deve exercer a sua cidadania, na plenitude.

Termino com as quatro liberdades enunciadas por outro colossal Presidente, que todos devemos ter e pelas quais nos devemos bater: liberdade de expressão, liberdade religiosa, liberdade de viver sem carências materiais e liberdade de viver sem medo.