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Expresso

Educação, nunca é demais

Na mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, António Costa, apesar dos comentários cénicos, dado o enquadramento ser uma creche, o mais relevante foi o tema central do discurso. Colocar a criança no centro das preocupações de um Governo é, de longe, um sentimento louvável. Todavia não é apenas uma questão de bons sentimentos. A economia faz-se de números e cálculos, todos concordamos. No entanto, não existe economia sem pessoas, seja como consumidores, seja como trabalhadores. Lamento se desiludo certos pensadores económicos modernos, paladinos do Excel e dos modelos econométricos, que se desmoronam, qual estátuas de areia, às primeiras chuvas. As variáveis, a primeira e segunda derivada de cada equação, as verdades de cada axioma, cruzam-se com a realidade de existirem… pessoas. Multiplicadores lagrangeanos, fronteira de possibilidades de produção… Pessoas de carne e osso. Com qualidades e defeitos, com vícios e manhas, com necessidades básicas e supérfluas, com sonhos e ódios. Pessoas. E, de facto, quer a economia, quer a política existem para e pelas pessoas. Foi este um dos grandes regressos de 2016. Não é justo qualificar os actuais dirigentes políticos como os mais preocupados com as pessoas, em detrimento dos anteriores. A percepção, por vezes, demasiadas na era da pós-verdade, vale mais do que a realidade, levando-nos a concluir que verdadeiramente devem ser as pessoas o centro da decisão de cada medida económica, e por consequentemente, política e não quaisquer interesses parcelares ou dos poucos. As pessoas são a unidade de conta do sistema democrático, não são os números das Finanças Públicas, contudo como harmonizar benignamente as ordoliberais regras europeias de gestão dos orçamentos, perdidas a soberania monetária e a cambial? Aguardamos a chegada de um Orçamento de Estado que não conte com, para usar uma linguagem empresarial, operações não recorrentes. A aferição da sustentabilidade só acontece quando o sistema entra em stress e, com o novo ano em mente, todos desejamos que os eventos negativos fiquem no passado, sem esquecer que devemos estar sempre preparados para as tempestades. No mar alto da economia global interligada há ventos e marés, que testam a nau e a tripulação, bem como a determinação e perícia do capitão.

António Costa ao relançar o tema da educação tocou num ponto chave para o nosso destino colectivo. Hoje em dia, a grande questão central do nosso futuro, como comunidade, é a pouca capacidade de dar condições às pessoas de terem filhos, de conseguirmos assegurar a renovação geracional. De serem pais, de terem tempo, meios e condições para usufruir e cumprir com os deveres e gozar os frutos da paternidade. Este tema é já muito falado, e já me referi a ele várias vezes, mas como a prática demora a corresponder não só ao que se pensa, como também às melhores práticas, aos casos de sucesso internacional, nunca é de mais repetir. Acontece que é toda a estrutura da educação que deve ser projectada para ajudar o país a crescer economicamente. Os resultados do PISA foram animadores, mas não se pode repousar sobre os louros. A Educação é uma das eternas paixões dos governantes, que o diga António Guterres, o mais recente Secretário-Geral das Nações Unidas.

Será que hoje somos um país que garante a existência de condições para que os jovens cresçam profissionalmente? Seremos meramente um país formador? Um país que educa os seus jovens e os dota das necessárias ferramentas técnicas e culturais, mas que não os consegue aproveitar, acabando por “exportá-los”. Será que as instituições de ensino formam os jovens com as competências necessárias ao nosso tecido empresarial?

São muitas as questões. Muitas as dúvidas e as incertezas. No entanto, a educação só se faz com profissionais qualificados, dedicados e motivados. Depois de uma mensagem tão eficaz e certeira, foi uma triste ironia do destino a manchete de que algumas instituições de Ensino Superior andam a contratar professores e investigadores para darem aulas a título gracioso. Como é possível, hoje em dia, exigir empenho, dedicação e profissionalismo a quem não recebe pelo trabalho que desempenha? Como é possível dar aulas em regime de voluntariado, sobretudo quando não estamos a falar de pessoas que pratiquem a acumulação de cargos, privilégio só ao alcance de alguns.

A dignidade da pessoa humana depende do salário que cada um recebe, fruto do trabalho que desenvolve. E sim, não basta dizer que a criança ou o jovem estudante está no centro das nossas preocupações, quando não lhes damos condições, quando se quer pescar sem cana, nem rede ou arpão.

A educação é a base da cultura de um povo. Educação implica investimento e acompanhamento exigente. E cada euro gasto na educação dos nossos jovens é investimento, não é despesa, mas a despesa deve ser virtuosa e para o ser terá de ser acompanhada de critérios rigorosos. Num país de parcos recursos, mesmo na hora de investir, há que saber gerir os meios de que dispomos. Se queremos realmente ser um país com viabilidade devemos encarar de frente a questão da educação. Sem receios, sem amarras, sem facilitismos corporativos ou sindicais e sem dogmas.