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Expresso

2016: o ano insólito

Passada a quadra natalícia, o recarregar de baterias junto da família e a habitual recriminação com o excesso de calorias, começa a preparação do novo ano. Com muitas incertezas e variáveis por descobrir, havendo aquelas que se preveem e as variáveis improváveis que desconhecemos, aquilo que alguém chamou os “unknown unknowns”.

Este ano que se aproxima do fim foi um ano improvável. E acrescento, histórico.

Podemos não concordar com o rumo dos acontecimentos, com os resultados saídos de cada decisão, de cada consulta popular, mas assistimos a momentos cruciais, cujo impacto no curso da história do mundo, nomeadamente no ocidental, demorará a revelar-se em toda a sua extensão. Desde logo, uma Europa que fica marcada pelo Brexit. Foi um enorme murro no estômago num movimento de construção e progressiva integração de países e Nações com décadas, com dificuldades, mas cujo ímpeto era dado pelo desejo de paz, depois de duas guerras mundiais, que destruíram a Europa e deitaram por terra o primado do Euromundo. Juntar a paz à prosperidade económica foi o sonho dos fundadores do ambicioso projecto iniciado com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. E se era ambicioso. Todavia do país de onde saiu, talvez, o maior estadista do Século XX, Winston Churchill, recebemos um Não a uma ideia de economia comum e espaço aberto europeu. Aqui, nas razões de tal decisão dos britânicos estiveram várias questões, sendo certa a importância, para o resultado, das questões de refugiados e da imigração. Não bastou ao Reino Unido estar fora do Acordo de Schengen, quis também estar fora da União. A ideia da entrada de pessoas de outras origens, do estereotipado canalizador polaco ao refugiado sírio, fez fechar as fonteiras mentais de muitos, a que se aliou uma campanha parca em bons esclarecimentos, mas bem recheada de demagogia e anúncios apocalípticos. E também aqui esteve, em parte, a razão para a outra grande surpresa de 2016: Donald Trump. Entre muros, ataques ao politicamente correcto e escândalos, a maior potência mundial tem um líder que é tudo, menos previsível. Por vezes, essa imprevisibilidade pode ser positiva para encontrar novos caminhos. Não obstante, numa situação de excepção, como a que vivemos, ficamos obviamente com o coração nas mãos, pois ao incerto pode juntar-se mais instabilidade, gerada onde se deveria procurar dar previsibilidade e segurança.

Ainda custa imaginar a troca de Barack Obama por Donald Trump.

Enfim, continuemos por 2016...

Se, em termos económicos, registámos uma ligeira subida de rotação da economia mundial, 2016, foi o ano do obnubilar da palavra austeridade. Foi-se. Será de vez?

Ninguém sabe.

Cá pelo burgo foi evidente o desaparecimento dessa linha de rumo. Todavia, os ciclos económicos vão e vêm e as contas, deixadas para mais tarde, um dia vão chegar. Assim neste ano falou-se de muito, mas não de austeridade. E a economia portuguesa, honra lhe seja feita, deu ténues indícios de crescimento, para esperança do Governo e do país. O reconforto veio mais pela previsão do défice abaixo dos 3%, do que pelos números do crescimento. Será que ninguém se lembra da dita almofada e dos cofres cheios? Pois. O período que agora vivemos também tem uns agradecimentos devidos ao passado recente.

2016 trouxe também a Portugal um novo Presidente. E que Presidente. Como Portugal não via há muitas décadas. É um Presidente omnipresente. Vai a todas. Dá a cara. Preside com um certo pendor presidencialista, apesar do semi-presidencialismo do regime. Num Governo, também ele diferente. Uma coligação inaudita, mas que vai resistindo. Um Primeiro-Ministro que de derrotado eleitoral alcançou o lugar que queria. E lá continua. Se isto tudo não é histórico o que será?

O golo do Éder? Sim. Até isso foi improvável neste ano. E com tudo isso Portugal foi Campeão Europeu. A acabar, ainda vimos um português chegar ao mais alto cargo internacional. 2016 foi também o ano de António Guterres, a quem 2017 trará muitos desafios. Esperemos que mantenha a sua inquebrantável capacidade de diálogo. O mundo e a confusa e perigosa política internacional precisam.

Passou a correr, confesso. Não sei se sentiram que este ano foi frenético, mas fica mesmo para a história: as sondagens ou opiniões avalizadas saíram todas furadas. Que venha 2017.