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Expresso

Obras públicas ou investimento privado?

No mês passado a perspectiva da Tesla instalar a sua Gigafactory em Portugal animou e electrizou os agentes económicos. No Faro de Vigo vinha escrito que: “A Península Ibérica, pela quantidade de horas de sol anuais, estará entre os destinos preferenciais para receber este novo investimento caso a empresa norte-americana queira replicar a fábrica fotovoltaica que instalou no telhado da sua outra megafábrica em construção em Sparks, no Nevada”.

Não é para menos. Se formos analisar o investimento previsto, falamos de um pacote global de investimento de 5 Mil Milhões de dólares e a criação de 6.500 postos de trabalho directos e 11 mil indirectos.

É muito dinheiro e são muitos empregos associados ao projecto.

Quem se pode dar ao luxo de dizer não, ou de menosprezar números desta grandeza?

Esteve bem o AICEP e o Ministério da Economia nas diligências que vêm promovendo. Se há algo que deve guiar a acção da Horta Seca é a captação deste tipo de investimentos, em sectores de ponta e com postos de trabalho em generoso número, pois que por cá são muito precisos.

Todavia a captação deste tão cobiçado investimento não se faz apenas pelo nosso sol, condição muito interessante, nem muito menos pelos nossos bonitos olhos, ou pelo passeio nos nossos melhores restaurantes, acompanhados da nossa tradicional boa hospitalidade. Conta, obviamente, mas isto no fim resume-se a condições, a incentivos, a contrapartidas fiscais e financeiras, bem como à, não menos importante, disponibilidade de mão-de-obra, com conhecimentos técnicos, para apenas enumerar algumas. E condições particulares obrigam a excepções. Nomeadamente fiscais, mas também cedências de terrenos, ligações e proximidade a vias de comunicação de acesso rápido à Europa, pois, não tenhamos dúvidas, será no Centro e Norte da Europa, dado o seu maior poder de compra, que mais se venderão estes automóveis. Não seria também despropositada uma parceria ibérica, geradora de sinergias, para assegurar a implementação deste projecto.

E como será percepcionado, em termos políticos, um possível pacote de incentivos ao investimento da Tesla, incluindo benefícios fiscais, pelas lentes do PCP e do Bloco? Fico, de facto, curioso e receoso com as prováveis reacções, tendo em conta a bagagem ideológica destes dois partidos, que facilmente fariam perigar o sucesso na captação destes investimentos. Contudo convém sublinhar, para que não haja espaço para confusões, que incentivar não é pagar para as empresas produzirem é sim criar condições propícias ao investimento proveitoso à economia nacional, de tal forma que os seus benefícios superem, sem dúvidas, os custos para o país.

Depois do caso de sucesso da Autoeuropa, era muito importa conseguir a captação deste projecto. Deste e de muitos mais.

Os dados do último Boletim Económico do Banco de Portugal apontam para que a nossa economia mantenha “a trajetória de recuperação moderada que tem caracterizado os anos mais recentes.”

Poderíamos escalpelizar esta afirmação, nas diferentes acepções, que se podem extrair, no entanto esta previsão, do nosso Banco Central, faz da necessidade de mais investimento uma preocupação premente.

Numa altura em que se vislumbram sinais no discurso político de um eventual regresso aos grandes investimentos em obras públicas, convém reflectir, parar para pensar. Será por aqui o caminho? Será sustentável? Não temos memória? Bem sabemos que as lições da História são demasiadas vezes ignoradas, mas o passado recente deveria estar mais fresco, mormente na mente dos nossos decisores políticos.

Tudo isto deve ser bem pensado e delineado racionalmente, planeado para maximizar o bem-estar dos cidadãos, não os lucros de quaisquer intervenientes e usando da maior transparência possível, pois o escrutínio dos poderes públicos faz parte do património da democracia. São opções políticas. De vulto. São decisões com enorme impacto, a vários níveis não só o económico e financeiro, nas gerações futuras. As nossas e as dos nossos filhos.

No entanto, as atenções, medidas pela comunicação social, estão mais centradas sobre uma possível crise, insurreição ou revolta, o leitor escolha a que mais gostar, no PSD, contra a liderança de Pedro Passos Coelho que, segundo os críticos, alguns actuando como uma espécie de franco-atiradores mediáticos, pode ser ou não motivadora. Há também o destaque dado a qualquer ideia, veiculada tipo balão de ensaio, de qualquer político como no caso dos impostos, domínio em que parece não ter acabado a criatividade sobre diferentes maneiras de aceder à depauperada carteira de todos nós contribuintes, mesmo que seja a pretexto da dívida.

Os tempos estão, de facto, bem trocados. Venha o Natal para dar alguma serenidade, recato e espírito de comunidade.

Desejo a todos um Feliz e Santo Natal, junto à família, onde estão os que mais amamos, com a indispensável saúde, que nunca é demais, o resto, até o investimento estrangeiro, virá por acréscimo.