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Expresso

Sai Domingues, entra Macedo

O folhetim da Caixa Geral de Depósitos (CGD), com respingos de novela das 9, foi um episódio inédito na já longa, ultimamente tormentosa, história da CGD, instituição à qual estávamos pouco habituados a prestar atenção, dados os focos de incêndio financeiro serem, normalmente, noutros lados do sistema bancário nacional. O processo de escolha da nova administração da CGD tem sido tormentoso, tendo os dislates começado com os modos, digamos pouco polidos, tidos, pelo Ministério das Finanças, para com a administração cessante, liderada por José de Matos. Estamos a falar de um Banco, para mais de um banco diferente dos demais, não só por ser público, mas também ser uma pedra basilar no sistema financeiro português. Quando as empresas públicas e outras ficaram sem linhas de crédito da banca internacional, quem teve de as socorrer na hora de aperto? A Caixa, com certeza. Todavia, para lá do carácter sui generis de que a CGD se reveste, qualquer Banco, digno desse nome, precisa de confiança e estabilidade, senão como se pode criar a fidúcia com a qual os depositantes vão entregar o que tanto lhes custou a amealhar. Nunca, por nunca, novelas e trapalhadas ajudarão a criar o ambiente de confiança necessário à estabilidade e bom funcionamento das instituições.

Isto foi uma trapalhada. E das grandes.

Estiveram todos mal. Todos. De António Domingues, ao Ministério das Finanças, também o Banco de Portugal, que suspeito poderia ter feito mais, terminando no Primeiro-Ministro e no Presidente da República.

Não quero esmiuçar todos os detalhes relevantes nem muito menos os mais tristes, para a salubridade das instituições da República, nem sequer quero entrar em questiúnculas ad hominem, estamos sempre a regressar aos romanos, mas não por bons motivos.

Aliás, este ponto é muito importante. Temos hoje um Presidente que cavalga uma onda de popularidade e estima popular. As sondagens apontam para 97% de aprovação. Extraordinário. Contudo é preciso cuidado, popularidade não equivale a permanência no poder. Os namoros fogosos por vezes terminam em arrufos. E a exposição, em demasia, pode ser prejudicial para o exercício do mais alto cargo da Nação. Antes, esperávamos por Domingo para ouvir o Professor Marcelo, agora ansiamos por um Domingo em que não tenha uma qualquer declaração ou nota a fazer.

Voltando à questão central, importa entender que este tema da Caixa, uma vitória mediática importante para Pedro Passos Coelho, acaba numa nova jogada de mestre de António Costa que, qual exímio praticante de judo, usa a força do adversário a seu favor.

Paulo Macedo, o novo homem forte da Caixa, assume o poder depois da água ter entrado no porão do navio e ser preciso quem evite que ela chegue à sala das máquinas. As expectativas ficaram tão em baixo que a normalidade na gestão, será um bálsamo para a fustigada instituição, para os trabalhadores, mas também para os clientes.

António Costa afasta um problema, escolhe uma boa solução e dá uma nova prova da sua inegável capacidade de fazer pontes, quer à esquerda, quer à direita. E isto conta. E muito.

A CGD precisa de pulso firme e do fim do amiguismo estatal, o chamado Centrão dos interesses. É extraordinário olhar para a concessão de créditos da Caixa e perceber que os grandes empresários faziam todos o mesmo iam à Caixa, com toda a ligeireza. É que são muitos os grupos

económicos que conseguiram, ao longo dos anos, muitos apoios, de elevado valor, que certamente não encontrariam noutra instituição bancária e, desconfiam os mais cépticos, graças a “simpáticas” avaliações de risco de crédito. Neste ponto, convém esperarmos pelos resultados da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que desejamos, todos nós contribuintes/accionistas do banco, faça luz sobre as muitas conjecturas e histórias escabrosas que se publicam na imprensa, sobre as práticas de concessão de crédito do passado. A CPI pode pôr a nu o que de errado se passou dissipando a nuvem de suspeitas que paira sobre o nº 63 da Avenida João XXI.

No meio deste capítulo de novela, será interessante irmos provavelmente, a breve trecho, assistir à deglutição pelo Bloco de Esquerda e o PCP de um Presidente da Caixa que supostamente preferia “tratar da saúde dos credores de Portugal que da dos doentes”. Palavras dos próprios, durante o mandato de Macedo na Saúde e sobretudo nas acusações que fizeram a Passos Coelho, em plena campanha eleitoral, o ano passado.

Mais irónico é ver o outrora “principescamente remunerado” Director-Geral dos Impostos, nomeado por Manuela Ferreira Leite, ser agora chamado para um dos mais importantes cargos no País e com uma remuneração superior, à que tinha na então DGCI actual Autoridade Tributária, igual à de António Domingues, contudo superior à da anterior Administração.

“Tranquilo, no pasa nada”. O povo é sereno, a esquerda governa e o resto, o resto é só fumaça.