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Expresso

Faz anos? O dia devia ser seu

Esta semana partiu uma personalidade que muito nos deve orgulhar pelo seu percurso, humanismo e grande contributo para a investigação médica. O Professor João Lobo Antunes, um médico, um pedagogo, um investigador, um grande homem. Sempre foi, pelo seu exemplo e pela sua contribuição, também na vida pública, uma pessoa de grande nível e de categoria singular. Acompanhei, sempre com gosto, as suas intervenções públicas. Por estes dias, recordo uma citação que me ficou, de há uns bons anos:

"A grande doença do espírito é a infelicidade".

Esta afirmação, de um homem que operou, tratou e cuidou de tantos cérebros é avassaladora.

Vivemos hoje um tempo de egoísmos e de hedonismos desregrados. Cada um por si, num mundo não civilizado e com sentido de comunidade, mas sim selvagem, onde tudo e todos são descartáveis, depois de cumpridos os propósitos. Cada pessoa é só mais um número, seja nas folhas de Excel de um orçamento de Estado, num estudo do FMI, na grelha de recursos humanos de uma empresa ou na fatídica lista de desempregados do IEFP, onde ninguém deseja ter o infortúnio de se encontrar. Se um vai, outro logo surgirá. Incentivos? Atenções? Elogios? Raros ou nunca desinteressados. Cada um tem mais em que pensar, mormente no seu egotismo.

Chamam a isto a lei do mercado ou competitividade, o triunfo do indivíduo face às grilhetas da sociedade, que o tolhem e manietam. Tudo certo. Contudo não é esta insensibilidade social uma das razões da infelicidade e do mal-estar social?

Não acredito em sistemas igualitários, colectivistas. Não, não somos todos iguais, não reagimos todos da mesma forma é a nossa diferença, a nossa individualidade, una na diversidade, que é a Humanidade.

Acredito sobretudo na liberdade, na garantia de iguais oportunidades, ainda mais do que a igualdade stricto sensu. Todos devemos ter igualdade de tratamento, respeito e oportunidades, mas cada um constrói o seu caminho, com total liberdade de decisão. Todos somos fruto das circunstâncias, de onde nascemos, de onde estudamos ou trabalhamos, da família a que pertencemos e de tudo o que está no nosso meio envolvente. Acredito, e temos muitos exemplos, que quem nasça sem muitas posses possa ser bem-sucedido, alcançar os patamares com que sonha, tal como quem nasça em berço de ouro, não tem, automaticamente, o sucesso garantido à partida.

A vida não é uma função determinística que com os mesmos dados de partida e fixos os pressupostos retorna sempre o mesmo resultado. O mundo tem incerteza, é estocástico, tem teoria do caos, sendo poucas as coisas tidas como certezas absolutas.

Esta conversa aprumada e de coração, permitam-me a ousadia, vem a propósito da comemoração do meu aniversário. Este dia 31 de outubro, ao chegar aos 31 faz-me reflectir sobre a sociedade onde vivemos. Muito mais haveria a dizer sobre a infelicidade ou a necessidade premente de humanizarmos um pouco mais este mercado implacável, que cada vez mais coloca à margem os que não são fortes, flexíveis ou afortunados o suficiente, para singrar na selva. É muito por aqui que acredito que não podemos ficar rendidos a uma dicotomia entre regime capitalista ou ditadura comunista. No meio reside a virtude. No respeito e na valorização da pessoa humana. E por fazer anos neste dia, com a bênção da inusitada coligação de esquerda ter reposto os feriados, acredito que seria uma excelente medida de valorização das pessoas a concessão do respectivo dia de anos. É apenas um dia no ano, é o dia em que celebramos a vida e o dar de caras com este mundo, com uma realidade que nos faz crescer todos os dias e que, apesar dos obstáculos e de todos os aborrecimentos que acumulamos, comemoramos cada ano que passa. Nada melhor do que permitir a todos gozar o seu dia como bem entendem. Não é uma proposta de ócio ou uma indulgência à preguiça. É uma proposta de alegria, de festejo. Dar alegria a todos, enquanto cá estamos. O tempo da vida humana é finito e cada ano passa tão rápido. Valha-nos o nosso dia. E assim também se contribui para a produtividade pela positiva. Quem não vem trabalhar com mais gosto perante uma medida destas? Muitas são as organizações que implementaram esta prática. Era bom abrir ao Estado e a todas as outras entidades, que não a têm, esta medida. Pequenos passos.

Fica este pequeno desejo num dia de festa, o meu dia, e que para todos seja também um bom dia.