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Expresso

Guterres: um farol de esperança

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O Conselho de Segurança das Nações Unidas escolheu, com o mundo a acompanhar as provas públicas dos candidatos, algo inédito na história da organização. António Guterres será, após confirmação da Assembleia Geral das Nações Unidas, o próximo Secretário Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Foi uma longa e dura caminhada. Com muita diplomacia, muitos boatos, muitas histórias que ficam por contar e com grande capacidade de encaixe do nosso candidato e bom jogo de bastidores do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).

Quase ao cortar da meta, apareceu uma candidatura de última hora, fabricada entre Berlim e Bruxelas, que foi um último episódio, que não deveria ter acontecido, pois teria resguardado o prestígio dos actores políticos envolvidos. Seria de bom tom que quem a protagonizou, em mais um momento triste de desunião europeia, tenha vergonha e abdique do cargo que suspendeu, com licença sem vencimento. Foi também de uma infelicidade tremenda tentar enquadrar esta eleição como um duelo socialistas europeus vs populares europeus.

Passemos adiante, o nosso país está, também, de parabéns. O sucesso, com tanta qualidade demonstrada de António Guterres é do próprio, mas também de Portugal.
Admito que nunca fui um entusiasta de António Guterres enquanto Primeiro-Ministro de Portugal. Penso que não era o cargo correcto para o seu perfil conciliador. Guterres é um homem de diálogo, consensos e muito savoir faire. Um orador notável e que fala de forma clara e calorosa. Um católico de bom coração, que se bateu firmemente, enquanto Alto Comissário para os Refugiados, pelos mais desprotegidos e mais frágeis de todos nós.

Não é um líder nato, de rasgo e de força. Não é homem de decisões rápidas e de confronto. Todas estas características não o desmerecem, pelo contrário. São o que são e fazem de António Guterres uma pessoa mais do que adequada para o novo cargo que irá assumir, numa organização muito complexa e que lida com alguns dos problemas mais intrincados deste mundo global, em que vivemos.

A ONU é o mais perto que temos de um governo mundial ou de tentativa de governação global. Trata-se do produto de um tempo, o pós-Segunda Guerra Mundial, dominado pelas potências vencedoras, com assento, como membros permanentes, com direito de veto, em assuntos de guerra e paz, no Conselho de Segurança. Todavia, num tempo em que a atenção sobre a ONU, dada a eleição que está no consciente de todos, era bom reflectirmos sobre como se estrutura esta incontornável organização internacional. Fará hoje sentido um Conselho de Segurança com esta composição? Porque estão a França e o Reino Unido quando existe hoje uma organização chamada União Europeia? E justificar-se-á a concentração de poder, em moldes pouco representativos do mundo de hoje, nos membros permanentes? Será que a busca da paz é realmente o único propósito que liga todos estes países? Ou será que domina o paradigma realista da luta pelo poder e a realpolitik?
Existem vários problemas globais que afectam a sobrevivência da humanidade, desde os problemas ligados ao ambiente passando pelas questões da saúde, como as epidemias globais. Mesmo a natureza da guerra mudou, pode ser económica ou informática, não é preciso disparar um único tiro para causar graves danos a um país. Falta Governança ao mundo. Falta uma organização que pense e concretize medidas de melhoria na economia mundial. Não chegam o G20, o FMI, o Banco Mundial ou reuniões dos Bancos Centrais. É preciso mais, num mundo globalizado onde as transações económicas ao minuto são uma constante, onde as fronteiras físicas pareciam derrubadas, onde podemos contactar com os quatro cantos do planeta à distância de um click, mas onde os movimentos migratórios são vistos como uma ameaça.

Apesar de ainda não termos esta organização pronta, fica o desafio para António Guterres, ao desempenhar este cargo vital na organização mais próxima daquela que precisamos. Para uma agenda de segurança, de paz e de inclusão económica e social.

Esperemos que esta eleição, de uma candidatura com enorme grandeza e rectidão, com uma diplomacia portuguesa a demonstrar o seu valor e profissionalismo, poucas vezes publicamente reconhecido, com o Governo a trabalhar de forma muito eficiente, onde gostei de ver Pedro Passos Coelho a felicitar o candidato e a cumprimentar o Governo, onde gostei de ver todos os Partidos envolvidos e entusiasmados (a unanimidade talvez fosse mais difícil com um candidato de outro campo ideológico), onde neste país Mário David fez uma figura lamentável, sirva para demonstrar o orgulho que devemos ter dos nossos compatriotas exemplares.

Não só por serem portugueses, mas por serem bons. E temos tantos e tão bons portugueses a vencer por esse mundo fora. A demonstrar o seu valor nas mais diversas empresas e organizações, em mercados e economias competitivas, a driblar barreiras linguísticas e também a suspirar essa palavra tão nossa: a saudade. A nossa Diáspora também está de parabéns.

Registo as primeiras palavras de Guterres: gratidão e humildade. São os sinais correctos para a actualidade. Onde os dois únicos líderes inspiradores que existem: o Papa Francisco e o Presidente Barack Obama, fazem da humildade, a grande lição de liderança.

Que continue a ser um grande ano para Portugal. Não foi apenas o golo do Éder, ou a classe mundial de Cristiano Ronaldo, também temos um português no cargo mais relevante do Mundo. Parabéns a António Guterres, parabéns para Portugal.