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Expresso

Champalimaud e as esquerdas

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Passados mais de quarenta anos do 25 de Abril, persistem complexos e posturas que tardam a mudar, se é que alguma vez mudarão. É extraordinário que, após uma revolução, essencial para a liberdade e para a transformação da vida material dos portugueses, certos sectores da nossa sociedade não olhem em frente e vivam presos a um passado, que procuraram mitificar com as suas exclusivas vitórias, de um conflito que hoje é História.

Portugal viveu “anos de chumbo” no Estado Novo. Já foi dito e redito. Muita bibliografia e historiografia se escreveu sobre este período do século XX português, uma mais revisionista e ideológica que outra. No entanto, o pós-25 de Abril, especialmente o PREC e o Gonçalvismo, não foram um período feliz para o país. A afirmação provocará as habituais comichões e ataques vindos dos sítios do costume. E sim, sei que não estava em nenhures no 25 de Abril… Todos compreendemos, nem que seja pela leitura e pelo estudo, que a revolução no dia 25 de Abril foi crucial para vivermos numa sociedade livre e democrática. Este caminho, em direcção ao Estado de Direito Democrático, não se fez sem solavancos, pois o período agitado do Verão Quente poderia ter descambado num regime totalitário, no lado oposto do espectro político àquele que estávamos a abandonar.

Vem este enquadramento histórico para dizer que não se compreende como, em pleno século XXI, mais de quarenta anos depois da queda do Estado Novo, ainda existam Partidos que ataquem o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa por condecorar, a título póstumo, António de Sommer Champalimaud.

É que este ataque diz muito de quem o faz. Diz, em primeiro lugar, pela ideia pré-concebida de ataque ao mundo capitalista e à figura de empresário ou do patrão. Esta ideia de que a economia deve girar à volta do Estado, sem empresários e sem lucro é uma ideia perigosa. Desde logo porque cria a sensação de que a igualdade é o paradigma único e que o nivelamento deve ser efectuado por baixo. Ou seja, todos pobres, logo todos iguais.

Não estou a discutir as amizades ou os percursos empresariais ou políticos de António Champalimaud. Sabemos que, aquando da sua partida deste mundo, este empresário deu uma bofetada de luva branca, num certo país que tanto o maltratou e atacou. Só a criação da Fundação Champalimaud, criada com um terço da sua fortuna pessoal, orientada para a cura da cegueira, bem como toda a actividade adicional que hoje desenvolve, de forma muito inovadora no tratamento oncológico, é mais do que merecida qualquer distinção ou referência de um órgão da República.

Não gosto de injustiças, muito menos gosto de ataques gratuitos a quem fez, sendo que só quem faz erra, quem nada faz raramente se engana. Ademais trata-se de alguém que muito lega a Portugal.

Esta ideia de que o que é capitalista e lucrativo faz mal, merece ser melhor explicada. Existem muitos empresários exploradores e sem escrúpulos (são defeitos humanos ou não?), mas desenganem-se quem pensa que o Estado, por si só, deve engolir, de uma só penada, a economia nacional, que deve ser o único e exclusivo proprietário dos meios de produção. Este ataque à iniciativa privada é tristemente ideológico. E desenganem-se as pessoas que pensam que a ideologia foi colocada na gaveta. Está aí para lavar e durar. Para muitos e longos debates.