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Expresso

Ainda a Caixa. Com Certeza

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O folhetim Caixa Geral de Depósitos (CGD) este verão tem dado que falar. Não vou perorar sobre as opções estratégicas, sobre o processo de recapitalização, sobre o modelo de governance ou sequer sobre a forma como tem sido gerida a entrada da nova administração.

No entanto, e por falar em Conselho de Administração, não posso deixar de me mostrar totalmente em desacordo com a recusa, pelo Banco Central Europeu (o novo “todo poderoso” da regulação bancária), de determinados nomes para integrar o novo Conselho de Administração.

É extraordinário que, uma instituição europeia, tão distante da realidade portuguesa seja capaz de aferir, com base em idiossincrática ou euroburocrática interpretação dos critérios, a idoneidade e a capacidade de pessoas em outros órgãos executivos.

Vivemos numa sociedade financeira onde a rotação entre diferentes conselhos de administração é comum, tal como o são a acumulação de cargos de administração, mormente dentro de empresas do mesmo grupo empresarial. Quando soube dos nomes propostos pelo Governo, como os demais cidadãos através dos jornais, para integrar a CGD tomei em linha de conta quatro questões. A primeira o elenco numeroso, a segunda a gritante falta de mulheres, a terceira uma potencial sobredosagem de BPI (quase que apetece perguntar não havia administradores ou directores na CGD dignos de ascender à administração?), a quarta, mais positiva, a satisfação com alguns dos nomes propostos.

Descontando as três primeiras situações que referi atrás, gostei de ver nomes com perfis e trajectos de vida diferenciados para a gestão da Caixa. Passámos anos e anos com banqueiros de elite, todos altamente qualificados, com o currículo e o pedigree adequados. Senhores poderosos, que todos tratavam com mesuras, que levaram banco atrás de banco ao fim conhecidos por todos, ficando para trás a respectiva factura para o contribuinte saldar.

Todavia, perante esta decisão do BCE, é extraordinário como não poderemos contar com pessoas válidas.

Então Leonor Beleza não pode ser administradora não executiva por causa de um restaurante? Mas faz algum sentido esta decisão? Não é uma pessoa competente, que tem hoje um know how tremendo e que poderia ser uma boa influência nas decisões da gestão para o futuro da Caixa?

E o que dizer de Bernardo Trindade? Penso que seria mais um nome adequado, de alguém com com visão, sobretudo no sector do turismo, que tão bem conhece, e que é hoje crucial na economia portuguesa.

E o que dizer de Paulo Pereira da Silva, um dos nossos mais inovadores e ousados empresários? Um homem que trabalha todos os dias em prol dessa empresa pioneira a nível mundial que é a Renova, não seria um excelente elemento para contribuir com inputs vários na condução do Banco Público?

Reafirmo, penso que os nomes propostos apresentavam qualidade e uma mais valia de visão estratégica para a CGD. A ideia de contar com diferentes sensibilidades e percursos de vida, o anglo-saxónico background, é algo que acredito ser crucial em todas as equipas. É que o saldo da gestão de tantos gestores profissionais na CGD está à vista. Já passaram por lá bons gestores, já passaram apenas e só comissários políticos. Era tempo de refrescar e de dar novo dinamismo, para encetar uma nova fase de uma instituição financeira crucial no depauperado sector financeiro nacional.

A Europa burocrata, gerida ao serviço dos grandes, continua a focar-se no que é acessório e a ignorar o essencial.

Não fiquei admirado com a recusa de Leonor Beleza, perante a resposta negativa do BCE. Quem quer fazer serviço público quando enfrenta estas decisões, no mínimo, pitorescas? Haja paciência.