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Expresso

Com creme ou sem creme? Com factura ou sem factura?

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Neste mundo em que as tradições são colocadas em causa, em que os usos e os costumes são considerados anacrónicos, o grande tema deste verão, que promete aquecer os areais, é não só a boa exposição solar, mas também se o vendedor ambulante, que nos leva as bolas de Berlim quentinhas, tem a facturação em dia.

Para lá da pertinente questão, com ou sem creme, estamos perante uma dúvida nova. Com ou sem factura? É um daqueles graves dilemas éticos e de cidadania. É um dos deveres de cidadão, pedir factura, perante a aquisição de um qualquer bem ou serviço. Mas que diabo, é só uma pequena bola de Berlim, um pecadilho alimentar. Agora também vamos ficar com o papelinho na mão, para satisfazer a voraz máquina fiscal e para ficar sem peso na consciência? Bom, sob determinado prisma, qualquer transacção no território nacional, deve ter o Estado como parceiro.

Em termos práticos, o que está aqui em causa? Olhando para a tecnologia actual, basta um simples smartphone e uma pequena impressora portátil e a factura sai. Contudo juntar mais peso à romaria do vendedor, de praia em praia sob um sol, não raras vezes, inclemente, naquilo que é uma actividade eminentemente sazonal, parece um pouco deslocado.

O polvo em que parece querer transformar-se o Estado, está em toda a parte. E os longos tentáculos, da máquina fiscal, chegaram agora aos areais do nosso litoral.

Ando nesta demanda há uns bons anos. Será que acabando o numerário, a bola de Berlim, tendo de ser paga exclusivamente por meios electrónicos, com rastreabilidade assegurada, não ficará de imediato sob o radar da máquina fiscal? Estou certo que sim. Este parece ser um caminho cada vez mais inelutável. Não olvidemos que o BCE já deu ordem de extinção às, em Portugal escassas, notas de 500 euros. Hoje já temos diversas formas de pagamento através dos nossos telemóveis. Aqui está uma boa oportunidade de negócio. Garantir que nada escapa à cobrança fiscal. É uma oportunidade de negócio com futuro ou não vivêssemos nós sob o signo da incessante expansão da receita fiscal, com melhor ou pior localização.

Já tínhamos assistido a um outro importante debate, a propósito da emissão de factura da bica

diária, que todos bebemos, e dos famosos sorteios da factura da sorte.

Em plena silly season, nada como um tema candente para despertar da modorra da época estival.

Bom, mas nas praias já não são apenas os senhores da bola de Berlim que fazem negócio, também temos a nova modalidade dos senhores que vendem óculos de sol e até fatos de banho. Sem esquecer as famosas massagens asiáticas. É andar por essas praias fora. Como se vê, toda uma oportunidade de negócio, em tempos de ensaio da saída da crise.

A minha preferência pessoal vai para a bola de Berlim sem creme, que não me levem a mal os adeptos da cremosidade.