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Expresso

Quo vadis União Europeia?

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O abalo chegou do outro lado do Canal da Mancha. Um Referendo pôs meio mundo a pensar. Pelo menos o mundo Ocidental e a forma como se idealizava essa sui generis organização internacional, construída sobre os escombros da Segunda Grande Guerra com o grande objectivo de evitar um novo conflito destrutivo na Europa, unindo as historicamente desavindas França e Alemanha.

A partir dessa ideia de construção de paz, a organização aprofundou-se e alargou-se face ao desenho inicial, segundo alguns em direcção a um pretenso federalismo. Esta é uma ideia de homens, com as qualidades e defeitos dos seres humanos. Idealizar um espaço comum, onde podem coabitar pessoas de diferentes nações, com diferentes caldos de cultura, com especificidades próprias e economias distintas, não é nem desígnio fácil, nem projecto imune à tormenta.

Ora, passados tantos anos, do lançamento das primeiras pedras deste sonho de um espaço comum, livre e sem fronteiras, onde a manutenção da paz e a distribuição da prosperidade era o cimento, é perceptível que, após o nascimento de várias gerações sem memória da Segunda Guerra, essa memória que se dissipa não tem força para ser a cola que une países tão distintos. Temos hoje gerações, da qual faço parte, que não tem na guerra a primeira resposta para um conflito. Não faz parte do nosso ADN, não faz parte da nossa ideia responder com armas e bombas a um foco de tensão.

Esta realidade é fulcral para perceber a nova era que nasceu. Todavia, se as bombas e armas ficaram de lado, os défices e as sanções económicas são hoje armas de efeitos brutais e que cada pessoa sente no seu bolso, logo na sua vida diária. É outra guerra. E começa aqui a questão que estamos a viver hoje.

Não percebo como se condena a marcação de um referendo interno. Esse medo, talvez da democracia, que todos clamam e erro que apontam a David Cameron sobre, se devia

ou não, ter submetido esta decisão a votos.

Mas que futuro pode existir numa Europa sem europeus?

O resultado foi a saída do Reino Unido? Sim. É um abalo político? É. Não obstante, desde quando o povo não é o soberano? Desde quando temos sempre de nos curvar perante a não eleita Bruxelas que decide, põe e dispõe e impõe castigos a um país por não cumprir os sacrossantos 3% de défice se, por outro lado, não tem base de apoio democrático a sustentar esse ditado europeu? Ao mesmo tempo, vemos que outros países, por serem quem são, têm isenção ilimitada…

E agora? O que vem no dia a seguir? Agora é tempo de ponderação, só depois será a hora da acção, que não se quer irreflectida e vingativa. É bom que todos os países que fazem da União Europeia este espaço extraordinário, que conta com uma liberdade de movimentos, quer de pessoas, quer de bens e serviços, quer de capitais, em que alguns têm inclusive uma moeda comum, que conta vários programas para diminuir assimetrias, perceba que o modelo não é perfeito e que um Referendo, com os resultados que este apresentou, só pode ser uma oportunidade para reformar a organização. Há que melhorá-la simplificando-a e não persistir na complexificação, no

reforço da legislação que procura abarcar toda e qualquer actividade humana. É preciso restaurar o princípio da subsidiariedade e não persistir na centralização de competências nos “cinzentos” e não eleitos eurocratas. Os colonos americanos antes de se desvincularem do Reino Unido disseram “No Taxation Without Representation”. Caminhar para um federalismo, da maneira como tem sido feito, sem pesos e contrapesos não é mais do que ir alegremente em direcção a um Directório.

Já chega de negativismo e histeria colectiva. O caos financeiro que nos aconteceu em 2008 tem tido consequências nefastas. Mas é urgente retirar as devidas ilações para uma melhor regulação de uma globalização desgovernada.

O modelo de uma Europa a 28 é sempre um desafio complexo. Conseguir harmonizar opiniões e estabelecer prioridades, com tantas e tantas diferenças e divergências, só se consegue com Estadistas. Esta é uma tecla gasta. Não obstante, é nestes momentos que os Estadistas vêm ao de cima. Aparecem e estabelecem pontes, acordos e consensos, que permitem continuar a acreditar que mais vale viver em comum com os outros do que ficar orgulhosamente sós. Tanto mais que perante os grandes desafios da humanidade, como os ambientais ou as pandemias, e os da inexorável globalização só unidos a outros seremos mais fortes, do que indo à luta sozinhos.

A evolução deste mundo já quebrou as fronteiras há muito tempo. A questão é mais de economia do que de estratégia militar.

O essencial, não me canso de o repetir, é a equidade na distribuição da riqueza. É esta sensação de que as gerações mais novas, em média, irão no futuro, receber menos que as gerações dos seus pais. Este é também o ponto que faz colocar tudo em causa. Em que os procedimentos, os valores, as certezas vacilam.

Já vimos cair o Muro, já vimos cair as Torres Gémeas, portanto, e apesar das burocracias e dos imensos erros cometidos pelos nossos Governantes, podemos dizer que a Europa da liberdade, da igualdade e da solidariedade só pode vencer. Assim pugnemos todos nós europeus por ela.