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Expresso

Comissão de inquérito à CGD? Sim, se faz favor

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Depois do público vs privado nos contratos de associação, eis que chega mais um palpitante duelo à arena político-mediática. Agora a magna questão é saber se deve ou não ser aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Tudo isto é tão incrível, que bem podemos respirar fundo. Andamos num clima de confrontação permanente, com questões de maior e de somenos importância.

Sejamos claros, actualmente a Assembleia da República tem duas grandes actividades de maior interesse. Não digo que o restante trabalho parlamentar não o seja, mas se há maior interesse da população, no trabalho dos seus 230 deputados, é quando assistimos a CPIs e aos debates quinzenais.

A aproximação dos eleitos aos eleitores merece ser salientada. Posto isto, não consigo compreender porque existe um clamor, fundado por declarações de figuras gradas como Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix ou António Lobo Xavier contra a existência de uma CPI.

Estamos em pleno processo de negociação de recapitalização entre o Governo e a Europa? Correcto, porém também estamos com várias dúvidas, caras em imparidades, que merecem resposta objectiva, com a menor utilização possível do “inglês dos negócios”, e cabal esclarecimento.

Andámos a ver comissões de inquérito ao BPN, ao BES e ao Banif. De todas ficámos a saber muito mais sobre as “boas práticas” e a organização do sector bancário em Portugal. Foi também nestas “autópsias” aos “cadáveres bancários” que se destacaram as actuações dos deputados Nuno Melo e Mariana Mortágua, a inquirir banqueiros, a apontar as suas falhas e incongruências.

Então se podemos apontar o dedo aos privados, colocar questões, pedir esclarecimentos e criticar a gestão, não podemos contar com os Deputados da Nação, pagos pelos contribuintes portugueses, a questionarem a gestão do único Banco público? Porquê? Porque estamos em negociação com Bruxelas? Mas na avaliação das ajudas públicas a Comissão Europeia não faz avaliações aprofundadas? E o BCE fica à margem?

Todos os que estão contra a CPI à CGD acenam com o risco de fuga de depósitos e quebra de prestígio da marca CGD, contudo, na minha modesta opinião, temos de começar a implementar uma cultura preventiva em Portugal. Não podemos deixar de procurar encontrar os erros e as falhas, para que, depois de avaliados, sejam corrigidos e, mais importante, não sejam repetidos.

Não tapemos o sol com a peneira, chega de varrer a areia para debaixo do tapete. Quando há dinheiros públicos envolvidos a bitola tem de estar elevada, o Estado não pode continuar a ser um amortecedor complacente dos buracos que são feitos por incúria ou pela perfídia de outrem.

Nem o erário público, nem a opinião pública aguentam esta espécie de história interminável de neglicência, nalguns casos criminosa, e má gestão que se instalaram em entidades, como as bancárias, que vivem da confiança que nelas é depositada.

Muito bem esteve o Ministro das Finanças Mário Centeno a levantar a questão de responsabilidades sobre os créditos concedidos, querendo o apuramento da verdade. Muito bem. E isto pode fazer perigar a “tal negociação” com Bruxelas? Obviamente que não, quanto mais claro for o estado de coisas, mais fácil e expedito será o processo.

Vamos ter bom senso e noção das coisas. Como diria Monsieur de La Palice: uma coisa é uma coisa, uma outra coisa é outra coisa.

Agora, importa apurar o espaço temporal. E aí, meus senhores, aí não há, nem pode existir restrições de datas. Não é por, na praça pública, se falar mais de Armando Vara ou Carlos Santos Ferreira que teremos de nos cingir a esse período. Não. Todos devem ser escrutinados. Todos devem prestar contas na Assembleia da República. Doa a quem doer, sem olhar à cor política.

Andámos anos a fingir que tínhamos grandes empresários, quando alguns eram embalados no regaço da CGD. É tempo de separar o trigo do joio. Assim, com esses grandes exemplos de empresários, a trabalhar com a carteira dos outros, também nós.