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Expresso

Banif: mais um banco mal resolvido

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Na pretérita semana, a SIC fez uma grande reportagem sobre o Banif. Até agora, nos dois episódios, que foram para o ar, ficaram a descoberto várias questões relevantes sobre o finado banco e algumas dúvidas continuam a pairar sobre o sistema financeiro português. No meio desta reportagem, de verdadeiro serviço público, recebemos a resposta da Comissão Europeia a retirar-se da solução encontrada para o Banif no final de 2015.

Este sacudir de responsabilidades, estranhamente português, da Comissão de Bruxelas é de estranhar. É que este é o papel a que parece estarmos relegados. A justificação, dada a todos nós cidadãos, é quase sempre a mesma: foi a Europa que exigiu. Não esquecendo o papel da dupla BCE-Banco de Portugal (do Eurosistema) quanto ao estatuto do Banif enquanto contraparte elegível do Banco Central.

Bom, deixemos estas ladainhas e fatalismos de fora. Vamos aos factos. Um Banco, mais um, que ruiu no panorama bancário português. Mais um Banco familiar, de um homem que gozou de grande prestígio em Portugal o Comendador Horácio Roque.

O que se passa então com o nosso sistema bancário? Em que instituições podemos nós confiar?

O que podemos retirar, do que até agora nos mostrou a reportagem da SIC, à semelhança do anterior trabalho sobre o BPN, também do jornalista Pedro Coelho, é a confirmação de um dos grandes cancros económicos que Portugal sofreu nos últimos 30 anos. A promiscuidade entre a Banca e a Construção Civil foi tal, que a enorme factura foi-se acumulando e entrou em pagamento nestes últimos anos.

Projectos megalómanos, sem estudos prévios de viabilidade económica, sem aderência à realidade, co-financiados por Bancos, normalmente com Conselhos de Administração bem frequentados. Se aos grandes facilitadores políticos acrescentarmos as Autarquias, os Governos Regionais e o não menos poderoso lobby do Futebol percebemos como foi mal gerido este país.

Repete-se em vários meios e órgãos de comunicação social a questão pertinente sobre então e o poder político não viu esta situação a avolumar-se qual bola de neve? E as auditorias de auditores e reguladores, que se diziam exigentes, não encontraram o problema nas contas dos Bancos?

Na verdade, não raras vezes para mal dos nossos pecados, continuamos a ser um pequeno T1, onde todos se conhecem, onde todos se cruzam, quer em restaurantes a almoçar ou em conselhos de administração a “praticar actos de gestão”. E por sermos este país, brando em costumes e propenso em ligações, tudo ficou em família, até que falhou o financiamento externo e aí aflorou-se um pormenor: a falta de capital.

Dizia António Mexia, em entrevista à revista SÁBADO, que Portugal tem três prioridades: capital, capital e capital. Mais do que capital, o que a história recente nos demonstra, e a história costuma ser boa conselheira, o que precisamos é de planeamento, ponderação, rigor e ética. Em todas as organizações não importa o sector de actividade.

O Banif é só mais um triste e caro exemplo. Um de vários, que infelizmente caíram e caem de forma estrondosa, em que quem paga, sem direito a reclamar da factura, pois não fez a despesa, é o contribuinte. E cada contribuinte sente o peso de cada erro de gestão, de cada acto de incúria e negligência, muitas vezes grosseira. E os gestores? E os decisores políticos? E quem projecta, idealiza, pede emprestado e coloca em insolvência e abre ao lado com novo nome na porta?

Pois.

Temos muitos balanços para limpar e muita imparidade para recapitalizar. Pedia encarecidamente, penso que todos os contribuintes me acompanham no singelo desejo, que fosse de vez. Sem deixar debaixo do tapete ou em veículos maus, retirados para fora do balanço, apenas para fazer luzir o que já há muito perdeu o brilho.

A grande revolução que falta cumprir é económica. E bem precisamos de um novo 25 de Abril nestas elites e formas de “administrar”. Tivesse ele chegado ontem…