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Expresso

Optimismo contra as adversidades

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O contexto político mudou. Não persistamos na ilusão. O que antes era frio, hirto e reservado é hoje complacente, afectuoso e próximo.

É uma mudança de postura, mas sobretudo de protagonistas. Aníbal Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho marcaram um tempo difícil e exigente em que as circunstâncias do país não permitiam tergiversar, na linha traçada pelo programa de ajustamento. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são hoje protagonistas e autores deste “tempo novo”.

O país é o mesmo. A população não mudou. A economia portuguesa continua com graves dificuldades e importantes desafios para ultrapassar. Saímos de uma situação de asfixia financeira, o que muito se deve a Passos Coelho e a Cavaco Silva. É a verdade dos factos. Não seria falhando os compromissos que se angariaria o tão necessário capital de boa vontade junto dos nossos credores externos.

No entanto, após este período eleitoral longo, penosamente longo, o país virou e alterou os seus protagonistas.

Este período marcou a passagem de um pessimismo extremo, para um despontar do optimismo.

Note-se as palavras do Presidente Marcelo sobre o primeiro-ministro António Costa, ainda na semana passada, “optimismo crónico”.

Estes estados de espírito não servem para mudar os difíceis dados macroeconómicos, que não permitem baixar os braços perante o complicado estado da nossa economia. Sabemos que o desemprego cresceu, as exportações caíram, o investimento retraiu-se, as taxas de juro a dez anos aumentaram, no entanto, vive-se num clima de alívio para as pessoas. Não é mensurável, não é de todo fácil de quantificar, mas hoje o palco é de Marcelo Rebelo de Sousa a distribuir afetos e de António Costa a construir consensos. E quem não olhar para esta nova forma de estar e não perceber que as nuvens negras, apesar de existirem, bem como as firmes provas dadas no passado recente, não chegam para conquistar a confiança das pessoas, não apanhou o zeitgeist.

As mensagens políticas não servem, por si só, para dinamizar a economia, ainda assim a economia precisa de confiança e esperança. As pessoas não podem viver num tormento e receio constantes da austeridade. A aposta numa economia com reforço do consumo interno, mas regrado e realista, é uma das formas, todavia insuficiente, de reanimar estes números que a todos devem preocupar.

As diferentes mudanças no quadro político atual são, em certa medida, reflexo dos seus atores atuais. O capital de simpatia que Marcelo Rebelo de Sousa acumulou tem em Pedro Passos Coelho o seu contraponto. O distanciamento que Pedro Passos Coelho hoje demonstra, comportamento diferente do que tinha em 2011, quando se candidatou pela primeira vez, deve fazê-lo ponderar sobre qual é a melhor postura e a melhor forma de comunicar com as pessoas nos dias de hoje. Atualmente, pese embora ter vencido as eleições, não governa. Não lhe cabe a ele ser o arauto das más notícias ou continuar a bater na tecla “austeridade”.

No caso de António Costa foi obra ter subido a primeiro-ministro, tendo perdido as eleições. E quem o faz, da forma que ele o fez, só pode ser visto como alguém capaz de construir pontes e negociar acordos. Todavia o seu temperamento optimista e a forma desempoeirada como tem abordado os problemas, para além de propiciarem um ambiente menos tenso, não pode ser visto, pela aparente facilidade de atuação, como um mar de rosas e facilidades. A governação não se mantém em andamento movida apenas a boa vontade e paciência.

É neste quadro que as pessoas presentemente estão mais aliviadas. O futuro é incerto? Sempre o foi, porém não nos podemos deixar abater ou permitir que as nuvens negras tomem conta da nossa vida. E o caminho a seguir, por quem é decisor político, no quadro económico atual, obriga a considerável bom senso e à busca de um equilíbrio não só na frente interna, mas também na delicada frente externa. O equilíbrio de quem precisa de incutir responsabilidade, mas também esperança nos seus concidadãos.

Dilema complexo este.